MyCujoo foca modelo de negócios na entrega de metadados e na fragilização da compra de direitos de transmissão por grandes players

“Estamos lançando o MyCujoo Live Services. Estamos abrindo nossa tecnologia para o mundo e oferecendo todas as ferramentas para criar uma experiência de transmissão ao vivo para criadores e desenvolvedores de conteúdo. A facilidade de como esses serviços funcionam juntos não é encontrada em nenhum outro lugar!”
Diogo Almeida | Mundo Bola Informação — Este é um tweet de Pedro Presa, idealizador e fundador, ao lado do seu irmão João Presa, da MyCujoo. O CEO comemora a expansão da experiência de transmissão ao vivo – livestreaming – para criadores e desenvolvedores de conteúdo, chamada de MyCujoo Live Services.
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Tudo começou com a derrocada do tradicional Boavista, que confinou-se a jogar apenas pelo campeonato distrital do Porto, em 2009. Ninguém transmitia os jogos.
Pedro é do ramo do futebol. Trabalhou em entidades como a Associação para as Ligas Europeias de Futebol, a Ligue 1 e La Liga. Percebeu que havia um mercado enorme por explorar. E ainda conseguiria, se tudo desse certo, acompanhar novamente o seu Bovista, o “time das camisolas esquisitas”, como é conhecido na Europa.
Em entrevista ao SAPO Desporto, importante veículo jornalístico português, Pedro explica:
“Entendi que não era só o Boavista, eram cerca de 95 por cento da pirâmide de todo o futebol ou mais que não pertence às ligas profissionais. O volume de jogos e jogadores inscritos nestas federações criava uma economia massiva, baseada em ‘nanocommunities’, uma rede de comunidades nano, que estão espalhadas pelo mundo, com uma paixão e uma lealdade brutal. O número de pessoas que jogam numa base semi-profissional ou amadora é muito superior à dos profissionais, e acreditamos que o nível de paixão que as pessoas destas comunidades têm para com estes clubes é muito superior ao de um fã que segue o Real Madrid no Nepal ou na China, por exemplo. Foi nessa base que criamos o Mycujoo, numa percepção também de negócio, baseada em toda a experiência que eu tinha na altura. Estamos a tentar criar a maior rede de comunidade de futebol do Mundo, baseado no futebol semi-profissional e amador”.

Demorou cerca de cinco anos para que a ideia se materializasse, e o MyCujoo se viabilizasse. O foco, como disse Pedro, foi desde sempre o semi-profissionalismo e o amadorismo mais organizado. A dificuldade em 2014 ainda era explicar o livestreaming.
Pausa para falarmos sobre a pandemia do coronavírus 2020: O MyCujoo transmitiu a portentosa Belarus Premier League, único campeonato de futebol profissional que não parou um único jogo por causa da covid-19. Presa retuitou postagem da sua empresa endossando anúncio da ABFF, federação nacional que organiza o Belarusão. Era meados de abril, durante a mais ferrenha quarentena global.
O primeiro contrato importante do MyCujoo foi com a Federação Suíça de Futebol, para transmissões da terceira e quarta divisões. Seguiu-se outro com a Federação da Dinamarca para jogos da primeira divisão da Liga Feminina. Hoje em dia, a empresa trabalha com mais de 120 federações e clubes a nível global.
Mas nem tudo são flores. O crescimento começou a ser afetado pelo investimento das plataformas como o Facebook e o Youtube, que também lançavam seus serviços de livestreaming. Como explicar às pessoas o porquê de a plataforma ser melhor que a das redes sociais?
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Com a palavra o próprio presidente da empresa: “Oferecemos proteção dos conteúdos, controle sobre os dados dos utilizadores, algo que não acontece no Youtube ou Facebook. Mas depois de muito trabalho e muita educação, conseguimos finalmente explicar às pessoas essa diferença e marcar a nossa presença no mercado”, explica Pedro Presa, além de apontar outra diferença: a qualidade dos utilizadores. Exemplifica com o trabalho feito junto a Federação Paulista de Futebol e enumera as vantagens da plataforma que transmitirá uma das semifinais do Carioca 2020.
“A Federação Paulista de Futebol, no Brasil, trabalha com alguns conteúdos no Facebook e alguns no Mycujoo. Se tiverem, por exemplo, 100 mil pessoas a assistirem a uma competição no Facebook, o tempo de permanência dessas pessoas é de cinco segundos. No Mycujoo podem ter 20 mil pessoas a ver, mas cada um passa, em média, três minutos. Com estes números começamos a mostrar aos detentores de conteúdos o valor que tinham em transmitir conosco e não com essas plataformas. Nós oferecemos resumos dos jogos, chats durante a partida. O Facebook não é uma plataforma para ver o futebol”, sentencia.
A MyCujoo tem sede em Amterdã, escritórios em Zurique, Lisboa e Singapura, e representações em SP, RJ e Boston. Aqui há maiores explicações mais sobre a garimpagem de dados:
“Somos uma plataforma democrática. Oferecemos a tecnologia, mas o nosso modelo de negócios é partilhar dados sobre utilizadores, conteúdos e receitas, coisa que o Facebook e o Youtube não fazem de forma bruta. Uma vez o conteúdo dentro dessas plataformas, os direitos passam a ser delas. Tudo o que fazemos junto ao conteúdo informamos sempre ao detentor do mesmo. Também nos destacamos pelo contexto, pela comunidade, como os gráficos, os ‘highlights’ durante o intervalo, a interatividade, tudo o que se passa à volta do conteúdo, que permite ter uma experiência muito mais enriquecida”, propagandeia o português.
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Na transmissão de um evento esportivo, o Mycujoo não gasta nada: os detentores dos direitos de imagem entram em contato com a empresa, criam o seu canal onde transmitem os seus jogos. Basta um celular ou câmara e internet. A empresa criou um app de forma a facilitar as transmissões. 80% dos usuários acessam via mobile e o Mycujoo apenas controla a parte da tecnologia, desde o momento da captação da imagem até a transmissão, melhorando o conteúdo em estúdio.
O modelo de negócio baseia-se em apresentar publicidade contextualizada junto com aos conteúdos, utilizadores e comunidades. A partilha de receitas é 50-50, mas há mudanças de acordo com os parceiros. Marcas podem patrocinar gols, a apresentação dos resultados, as estatísticas, o placar, entre outras propriedades.
“Além do conteúdo em direto, oferecemos um estúdio semiautomático, que permite clicar num botão e ver as principais ações de um jogo como cartões, golos, jogadas, faltas, etc. À medida que o jogo avança, recolhemos ‘metadados’ sobre o vídeo, associado a uma entidade, como jogadores e clubes ou seleções, e tudo isto é oferecido em tempo real. Criamos cerca de 40 ‘highlights’ por jogo, o que permite criar conteúdo original com os jogos acontecendo, mas também ter uma base de dados de informação sobre o jogador e conteúdo a nível global que vai ajudar no futuro, para quem faz ‘scouting’ sobre jogadores, etc.”, explica Presa.
“Em termos técnicos, o mínimo que podemos aceitar para receber conteúdos é 0,8 gigabites de upload. Não controlamos a qualidade de internet no país e a forma como o conteúdo é gerido. Mas mesmo que o conteúdo tenha pouca qualidade, as pessoas dessa comunidade vão querer assistir a esse conteúdo lá. Para transformar esse conteúdo num ‘widget’ global, o mesmo é curado em estúdio, ou seja, temos uma equipe que faz os melhores gols da semana, os momentos mais engraçados e isso permite-nos pegar no conteúdo, mesmo que tenha pouca qualidade, colocá-lo num contexto específico e terá uma abordagem diferente [Pequena pausa para nossa opinião: este não parece ser o caso do Fla].

“O crescimento exponencial da plataforma deixa o Mycujoo numa posição privilegiada no mundo do ‘livestreaming’. De uma empresa que só servia conteúdo em torno dos 90 minutos de um jogo de futebol, a ‘startup’ portuguesa alargou horizontes para permitir que as comunidades possam interagir com a plataforma, criando conteúdo, principalmente no mobile, de onde vêm 80 por cento dos acessos. Recentemente a empresa conseguiu um investimento de 3,7 milhões de euros por parte de um investidor suíço para melhoramento da plataforma. O crescimento de plataformas de transmissão de jogos e a desaceleração de crescimento das agências detentoras dos direitos de transmissão televisiva dos grandes eventos desportivos é uma boa notícia. O grupo de mídia francês Lagardère já expressou publicamente o desejo de abrir mão dos direitos de transmissão que detém. Outras empresas deverão seguir-lhe os passos. Os conteúdos ‘premium’ como o Mundial de Futebol, a Copa América, o Europeu de Futebol, os Jogos Olímpicos ou a Liga dos Campeões, terão sempre espaço para ter distribuição nos grandes ‘media partners’, mas os outros conteúdos terão dificuldades”.
Daqui a uns anos a Premier League não vai conseguir vender os direitos de transmissão no Brasil, por exemplo, nem na Indonésia, pelo valor que vendem hoje em dia. Qual a comunidade que vão se aproximar para poder saber que consumidores vão conseguir atingir no Brasil? Nós sabemos que temos 10 milhões de jogadores no Brasil a transmitir diariamente na plataforma [???], que interagem diariamente conosco, sabemos que utilizadores gostam da Premier League na Indonésia, que tipo de clubes gostam, etc”, vaticina Pedro Presa.
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O Flamengo enfrenta o Volta Redonda neste domingo (5), em partida válida pela semifinal da Taça Rio. A transmissão do jogo será feita pela FlaTV, emissora oficial do clube, através da plataforma MyCujoo. Para o público geral, será cobrado R$ 10 (no Brasil) e US$ 8 (no exterior); sócio-torcedor não paga. A venda começa no sábado (4), às 10h, no site da plataforma, e o pagamento será por meio de cartão de débito ou crédito.
A transmissão sem imagens, que já vinha sendo feita pela FlaTV antes da publicação da Medida Provisória 984, também acontecerá contra o Volta Redonda. Neste formato, a transmissão será gratuita. O pré-jogo começa às 14h e a partida está marcada para as 16h. Caso o Flamengo seja campeão da Taça Rio, será também campeão carioca.
*Créditos da imagem destacada no post e nas redes sociais: Divulgação / Mycujoo