Flamengo lado B, Flamengo lado A; nada de política; política de nada

O que se vê é uma blindagem acrítica que acredita na perseguição ao clube – que eventualmente acontece –, criando um estigma dos mais perigosos: o euriquismo
Juro solenemente, perante todas as tribos e tribunais, ainda que me esfreguem cruz de malta, estrela solitária ou pó de arroz em minha cara, não negarei três vezes sob nenhuma hipótese, o amor à insígnia rubro-negra que pulula em meu peito, que explode em minhas veias, que aquece e ferve o caldeirão de felicidade no meu ser. Eu sou Flamengo, Flamengo até morrer!!
Bom, espero que o parágrafo acima tenha me abençoado de quaisquer desconfianças sobre qual time de futebol eu amo incondicionalmente (é o Flamengo, viu?). E é por esse sentimento gigantesco e inquebrável que a gente sabe/busca/tenta discernir entre antinomias, antíteses, pelo bem ou pelo mal, lado B ou lado A … mas que coisa, calma lá: não é de binarismos que nós queremos falar e nem é só de binarismo que a vida é organizada. Queremos nos arriscar sair do aparente para essências.
Do mesmo autor: Pra ver o Mengão passar
Vamos lá: O CARIOCÃO 2020 VOLTOU!! Ora, que saudades do Mengão, como você fez falta, tanto tempo sem acalantar meu coração com suas exibições magníficas, deslumbrantes, inesquecíveis e 3×0 sobre o Bangu, que retorno, aiai (…) … opa, tem uns contextos inseridos nisso tudo, né? Ou não?
“É claro que tem!! Mas o Mengão está dando exemplos, está à frente do processo, de elaborar protocolos sanitários, zero chances de contágio, servindo de base para Conmebol, FIFA, servindo para mostrar à sociedade que o que pode voltar, tem que voltar, além de ter ajudado várias comunidades com distribuição de kits, etc.”
Sim. Tudo isso é a mais pura verdade. O Flamengo é tudo isto e faz/fez todas estas ações, até mais. Ninguém disse o contrário. É um exemplo? Claro. Fez muito por interesses próprios? Evidente, o clube tem que se preocupar consigo e isso é coerente. Mas podemos assumir que existem meios e jeitos de pensar e fazer o bem do clube?
Partindo dessa premissa e, contextualizando com a crise sem precedentes da saúde pública por conta da pandemia que assola o mundo e, com mais peso, nosso país, sou levado a crer, a partir de posicionamento – falaremos um pouco disso mais tarde – que embora exista todo um lado positivo de ações do nosso amado Flamengo, há um lado carregado de valores que destoam daquilo que é Flamengo.
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Apressados já alertarão convictos que não se mistura politica com futebol ou que se f*** minha opinião. Bom, gente, tenho uma notícia pra vocês: a política está em tudo. E realmente não adianta assumir discursos de isenção, mesmo que seja reconfortador para o indivíduo, mas na verdade nem é. Alguém ou algum grupo irá manejar os entendimentos e você só seguirá, achando normal e acreditando equivocadamente que atos técnicos normativas jurídicas, conversas com autoridades, treinar sem liberação e a própria escolha da reação ao problema da pandemia são fatos dissociados de política. Mas tudo bem, nós vivemos a época mais áurea da tecnologia, podemos acessar informações pelas redes. Claro, há muita desinformação, mas temos ainda a faculdade e capacidade de interpretar e analisar as coisas além de aparências e alardes, não é?
Portanto, há política naquilo que o Flamengo faz, há decisões e ações políticas, que respondem a um percurso de escolhas pensadas, que ignoram outras possibilidades, de caso pensado ou não. E é a partir disso, de outros modos de fazer as coisas que surge, incrivelmente, a capacidade de criticar. Olha só que belo isso. Eu posso amar meu clube, eu morrendo de saudades, com certa felicidade por seu retorno, mas com pés no chão, saber apontar e ver aqui e ali, elementos contraditórios, equivocados, a partir de um posicionamento próprio – que não se confunde com opinião. Opinar é querer um 3-4-3, ou preferir um sabor de sorvete em detrimento de outro – que se caracteriza por uma série de impressões e leituras daquilo que acreditamos ser coerente com princípios teóricos, ideológicos e de experiência.
“Você tá falando de direita e esquerda né? Pra cima do meu Flamengo não, sai daqui com esse assunto.”
Ainda que essa divisão perpasse muitos espaços da nossa sociedade, por incrível que pareça, dentro dos dois, existem algumas dimensões, que se diferenciam, mas nem é exatamente sobre isso que estou falando. Minha preocupação é em como as decisões políticas tomadas pela gestão atual podem manchar a história do clube. Calma, respira, relaxa. Continua lendo.
Citamos ações acertadas da mesma gestão, e que é coerente para qualquer clube, que a gestão pense no melhor para o time. E que há modos de se fazer isso. Tomemos a volta do Carioca. Ainda que um campeonato histórico e folclórico, não seria das competições com mais celeridade para voltar. Ponto. E então por qual motivo voltar agora? Ponto. Lembrem-se, é de num contexto de pandemia que estamos inseridos e por mais preparado que o Flamengo esteja, ele não irá competir sozinho.
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E ainda que as garantias totais e que nada de ruim aconteça, torcemos para que siga assim, há uma disparidade entre a situação do time em relação ao país. Tudo bem, não seria da alçada do Flamengo, mas a capacidade que ele tem de gerir a crise não é a mesma que esmagadora maioria de empresas, que tencionam o retorno das atividades, tendo o futebol como base, por exemplo. Além disso, a crise se estoura e se propaga com mais rigor principalmente para pessoas pobres, pessoas pretas, comunidades e povos indígenas. A qualidade de cuidados não chega para estas populações.
Por seu turno, o Flamengo caminha sem uma ética que considere essa realidade. Ainda que não seja sua responsabilidade, mas se aproxima de ser uma medida contraproducente, esmagando as políticas de isolamento, deixando, por exemplo, estádios vazios por muito mais tempo. Mas para que a torcida vai se importar com isso né? Esse é um outro ponto preocupante e que faz criar um verdadeiro escudo para proteção de dirigente, por conseguinte ao clube. O clube acertou e acerta sim em várias coisas, mas é primordial que se assuma que erra também e que precisa ser cobrado.
Contudo, o que se vê é uma blindagem acrítica que acredita na perseguição ao clube, – que realmente acontece por parte da mídia esportiva, mas não toda – criando um estigma dos mais perigosos para qualquer time: uma espécie de euriquismo rubro-negro. Campo perigoso, que ajuda, em parte, a acirrar ainda mais o aspecto excludente do futebol moderno. É um tipo de cartolagem preocupado com montantes econômicos – o que é bom – para o clube, mas dando as costas para a fatia que mais faz a torcida ter a identidade de Nação. Não de hoje, o futebol como um todo, na construção de arenas, no exclusivismo, afasta o povo, a massa diversificada que tem no futebol uma das alegrias de vida, reformulando um tipo de torcedor ou torcida que acessa o clube (não falo aqui da maioria que se movimentam em redes sociais, por exemplo). Quase (?) uma relação de serviço, de compra e venda.
TV Mundo Bola: Raça, Amor & Groselha, com Celso Rocha de Barros
Em tese, não importa o que o Flamengo precise ultrapassar além da dimensão técnica, mas humana: seja apressar politicamente a volta do futebol, seja jogar justamente ao lado do Hospital de Campanha do Maracanã (uma simbologia triste dessa deveria ser um soco de realidade em qualquer pessoa), ambos no contexto da pandemia, tudo isso parece ser terciário, quaternário para meu desejo individual de poder ver meu time. Amo o Flamengo, sei o quanto suas exibições, sobretudo de 2019 pra cá, têm sido até benéficas para saúde mental de muita gente. Mas há uma pandemia, há muito luto, há caos na vida de muita gente que incidem com potência sobre a saúde mental das pessoas em geral. Pensar em resolver essa situação deveria ser muito mais urgente que o retorno de futebol e o sentimento camaroteiro de parte da torcida.
Em que pese todas estas questões, retomo a fala do Mister, quando diz que precisamos saber conviver com o vírus. E ele está absolutamente certo. Para tanto, as desigualdades históricas que dão a dimensão do nosso país precisam seriamente ser revertidas, abolidas, encerradas. Não cabe ao nosso time resolver estas questões. Mas caminhar ainda mais por percursos coletivos, alinhados com os dilemas da realidade, pode ser quem sabe, uma dentre tantas formas. Quem sabe um Flamengo que se diz de todos, possa/volte a ser de todas e todos.
*Créditos da imagem destacada no post e nas redes sociais: Reprodução