Zé Ricardo falha em 1° grande desafio no profissional

Era consenso que o Flamengo ia avançando rodada a rodada com Zé Ricardo à frente. A última formação com meias ao invés de atacantes havia dado mais consistência ao time, porém contra o Palmeiras houve a volta ao 4-3-3 e com ele o ressurgimento de velhos problemas. Amplamente dominado, durante o jogo, sem conseguir que Prass fizesse qualquer defesa, o Flamengo voltou a perder e mostrar que está muito aquém de ser competitivo.
Zé Ricardo levou o Flamengo a campo com: Alex – Rodinei, Léo Duarte, César Martins, Jorge – William Arão, Alan Patrick, Márcio Araújo – Fernandinho, Felipe Vizeu, Éverton.
Por que voltar ao 4-3-3?
Zé Ricardo já havia dito que costuma estudar o adversário e adaptar o time para a melhor estratégia que minimize as vantagens do adversário e maximize as virtudes de seu time. Não é segredo que o Palmeiras é forte pelas laterais e tem em Gabriel Jesus, jogador rápido e habilidoso, sua maior arma.
Assim, a ideia de escalar jogadores fortes e rápidos no ataque, que poderiam ocupar o lado e prender os laterais, além de acompanhá-los na recomposição defensiva, não só faz sentido como poderia ter sido acertada, se as peças corretas fossem usadas.
Fernandinho, em teoria, é um atacante rápido e forte com capacidade de drible e que ajuda na marcação. Na prática, um jogador que apesar de rápido e com alguma qualidade de drible não tem recurso de passe e finaliza muito mal, além de prender demais a bola. Na recomposição defensiva, acompanha o lateral e para o adversário com falta, por vezes de força excessiva.
Já Éverton, apesar de esforçado e bom na recomposição defensiva, não consegue apoiar adequadamente. As escolhas de jogada são equivocadas, o passe ofensivo, vertical, não é bom e tudo isso faz com que muitas jogadas de ataque morram em seus pés. Além disso, também não é um bom finalizador e, assim como Fernandinho, perdeu chances boas de gol durante o jogo.
Por que o Flamengo foi dominado?
Há alguns erros recorrentes que fragilizam o time do Flamengo em sua estrutura. Apesar de serem problemas individuais, afetam o time coletivamente e prejudicam a dinâmica de jogo em múltiplas frentes.
Saída de Bola
Quanto mais rápida for a transição entre os setores do campo (defesa, meio e ataque), menor será a compactação e a organização defensiva do adversário. Se os jogadores de meio-campo recebem rapidamente a bola, podem observar ao redor e acionar o companheiro melhor colocado para dar seguimento a jogada. Se a saída de bola for lenta, quando os responsáveis por armar o jogo receberem a bola estarão cercados por dois marcadores e precisarão se deslocar e driblar, principalmente se nenhum companheiro encostar ou se mover para receber. Também terão menos tempo para observar o campo a procura de companheiros ou espaço para arriscar mais no passe.
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Como as imagens acima demonstram, a especialidade de Márcio Araújo é retardar ao máximo a saída de bola. Quando ele não se desmarca para receber a bola dos zagueiros, estes acabam recuando para o goleiro ou dando chutão para frente. E quando ele recebe a bola, tende a tocar despretensiosamente para os zagueiros ou laterais, raramente avançando e só passando se algum jogador de frente encostar. O primeiro gol do Palmeiras foi justamente originado de um lance imprudente de César Martins, que sem ter para quem tocar já que Márcio Araújo não se apresentava, tentou inverter o jogo para a outra lateral e originou um ataque mortal.
Criação
Apesar de no Brasil existir muito forte na memória do torcedor a figura do armador, especialmente nos torcedores do Flamengo, a criação não precisa estar centrada no armador. Um meio de campo dinâmico, com jogadores que tenham recurso no passe e com visão de jogo, pode criar oportunidades de gol sem que haja um jogador específico para isso.
Mas no Flamengo de Muricy e Zé Ricardo a armação ainda está centrada em Alan Patrick, um jogador apático, que tem muito mais baixos que altos nas partidas. Além de não ajudar na marcação, voltando lentamente nas recomposições, não é um jogador que recue para ajudar na saída de bola e quando a recebe tende a prender a posse. Apesar de ter recurso de passe, não utiliza sua habilidade como deveria, abusando de passes curtos laterais ou de jogadas pelos lados como os infindáveis cruzamentos (81,5% de erros neste fundamento no campeonato).
Como podem os treinadores continuarem apostando em um jogador que tem média de 1,5 passes para finalização no Campeonato Brasileiro? Aliás, se considerarmos apenas os passes-chave da competição, Alan Patrick é o 12° colocado entre os jogadores de todos os times. Esses dados expõem a necessidade de fortalecimento do meio-campo, que precisa contar com meias que possam tanto subir em velocidade quanto trabalhar a bola como Arão, Mancuello, Ederson e Gabriel, além de Adryan que retorna ao Flamengo esse mês.
Ataque
Como a bola demora a chegar ao meio e este setor raramente conta com jogadores capazes de armar jogadas, a marcação adversária fica mais fácil, principalmente com o meio-campo esvaziado do Flamengo. A insistência pelas jogadas laterais também é um facilitador já que o jogador está limitado pela linha lateral e a taxa de cruzamentos certos do Flamengo é de apenas 20%.
Os pontas abertos só entram na área no abafa, o que tende a deixar o centroavante isolado, obrigando-o a sair muito da área. Por sorte, Felipe Vizeu e Guerrero conseguem fazer boas jogadas saindo da área, o problema é que nem sempre alguém entra para receber e, quando o faz, finaliza mal.
Recomposição defensiva
O Flamengo recompõe rápido e com Zé Ricardo tem conseguido manter boa compactação defensiva. O problema é quando o time adversário tem jogadores rápidos no ataque e consegue fazer jogadas com lançamentos em profundidade. Léo Duarte é o único zagueiro rápido, os laterais são mais rápidos para subir que para recompor e na direita tanto Rodinei quanto o ponta que joga ali não defendem bem o setor, sobrecarregando Arão.
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Contra o Palmeiras, o Flamengo perdia a bola no ataque e via o adversário sair rapidamente para a armação do ataque, buscando Gabriel Jesus que pegava os zagueiros desprotegidos – com Márcio Araújo sempre mal posicionado – e levava a melhor, conseguindo levar perigo ao gol de Muralha. Contra o Flamengo, o alviverde acertou 22 lançamentos e 5 das 10 finalizações.
O que Zé Ricardo fez para arrumar o time?
O certo seria, no intervalo, trocar Fernandinho por Mancuello ou Cuellar para ganhar o meio-campo. No caso do colombiano, Arão poderia ser deslocado para a meia direita, passando a jogar aberto na posição que Cirino ocupava no 4-2-3-1 usado contra o Vitória. No caso do argentino, o melhor seria deslocar Éverton para a direita onde ajudaria a cobrir Rodinei e deixar Mancuello na esquerda, onde poderia construir o jogo com Jorge.
Mas Zé Ricardo novamente não mexeu no intervalo. O Flamengo até conseguiu equilibrar o jogo nos primeiros 15 minutos jogando na vontade, na imposição física, mas sem ameaçar de fato, já que a única finalização certa foi o gol feito por Alan Patrick em chute de fora da área. No total o Flamengo finalizou apenas 7 vezes, a maioria passando bem longe do gol.
A substituição de Vizeu por Cirino aos 14 minutos do 2° tempo, já feita em outros jogos, mostra falta de leitura do jogo. O problema não era ter alguém com força para puxar contra-ataque, tão pouco Vizeu estava jogando mal, a bola simplesmente não chegava ao atacante. Era necessário fortalecer a criação e não o “poder de fogo”.
Outra substituição ruim foi a entrada de Cuéllar no lugar de Éverton aos 23 minutos do 2° tempo, quando Fernandinho estava ainda pior no jogo. Não que participasse menos que o camisa 22, mas mata os ataques com primazia e pouco ajudava defensivamente. O ponto positivo foi a melhora na saída de bola e na formação defensiva.
Foi então que mais uma vez o Flamengo ficou com um jogador a menos. Não é possível que faltando mais de 20 minutos de jogo, alguém resolva trocar um gol certo por um pênalti. A defesa foi linda, mas César Martins cometeu um erro grave que além de não evitar que o Palmeiras tomasse a frente do placar, ainda tirou do Flamengo a chance de buscar a vitória, visto que o time passou a jogar encolhido, tentando vez ou outra um contra-ataque veloz.
Cinco minutos depois, a única substituição certa de Zé Ricardo. Trocar Mancuello por Alan Patrick melhorou a defesa, já que o argentino marca mais, manteve a qualidade numa eventual bola parada e colocou em campo um meia descansado para ajudar no ataque em velocidade. O problema todo foi ter Cirino e Fernandinho a frente, dois jogadores que continuaram errando tudo.
Avaliação final
Zé Ricardo continua demonstrando ser um treinador de potencial, capaz de ir organizando o time e motivando os jogadores a se entregarem 100% nos jogos. Porém, seus erros na escalação e nas alterações mostram que ele ainda não está pronto para pegar um desafio do tamanho do Flamengo. Uma vitória e estaria dividindo a liderança, a derrota tirou o time do G4.
Ainda apoio que seja enviado para um curso na Europa ou até na Argentina, passando por um período de estágio com um grande treinador, que idealmente estaria dirigindo o time do Flamengo. É hora do clube investir pesado em treinadores, seja na formação de quem tem potencial ou na contratação de alguém com bagagem para não só arrumar o time, como também implementar uma filosofia no departamento de futebol.
Saudações Rubro-Negras