"Por que eu fiz aquilo?": Andreas Pereira abre o jogo sobre passagem e futuro no Flamengo

27 de novembro de 2021. Para muitos esse é o marco de Andreas Pereira no Flamengo. Antes dessa data ele era um dos destaques do elenco da temporada — quebrando o jejum de dois anos sem gol de falta rubro-negro e sendo o substituto ideal de Gerson. No entanto, após o fatídico erro naquela final, o camisa 18 nunca conseguiu recuperar o prestígio com a Nação. Ele falou ao ge pela primeiro vez após o que aconteceu.
“Eu já vi um milhão de vezes. No momento, estava muito claro o que eu ia fazer e a bola acabou escapando. Já vi um milhão de vezes para ver o que aconteceu, o que poderia ter feito. Não só vi, tive vários sonhos”, revelou.
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Em uma entrevista, o normal é o jornalista realizar perguntar para conseguir resposta e não ao contrário. Contudo, é comum o entrevistado se auto questionar sobre algumas atitudes próprias. Essa foi uma característica marcante na conversa de Andreas, que até hoje mostra questionamentos ao que aconteceu. Mas ele reconhece suas boas atuações em partidas anteriores e até nos minutos da final que antecederam o lance decisivo. Ou seja, ele conhece sua competitividade que cativou a Nação durante três meses.
“Sempre lembro da ação e falo: “Por que eu fiz aquilo?”. Agora, eu tento olhar nos gols que eu fiz e focar nas coisas positivas”, revelou. “Para mim, dentro de campo, a final foi um dos jogos que me senti melhor. Não estava acreditando que aquilo tinha acontecido comigo em uma bola que arrisco 100 vezes nos jogos e nunca tinha perdido. Justamente na final, no título que eu mais queria ganhar, vim para o Brasil para ganhar esse título, e teve que acontecer comigo. Não quero que aconteça com nenhum companheiro e fiquei muito triste, foi uma decepção, mas…como vou dizer? Foi um momento de tristeza. Foi difícil”, completou.
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Mas no meio de tantos “por quês”, nada melhor do que o próprio Andreas Pereira para explicar o que definitivamente aconteceu:
“No primeiro instante, quando a bola vem, eu vi que chegava uma pressão e domino para tocar para o outro lado. Mas vi que o Rodrigo Caio e o Isla estavam já pressionados. Ia recuar para o goleiro, mas perdi o balanço, cai para trás e me desequilibrei. Não tive chance nem de me jogar na bola, fazer a falta, e fiquei sem reação. O Deyverson veio com tudo. Normalmente, ele não pressiona. Foi uma bola que ele acreditou, mas eu tinha certeza que depois ia sair o gol. Estava confiante de que ainda íamos virar, estávamos bem no jogo. Foi uma sensação de tristeza mesmo. Quando ele apitou e ficou a certeza de que o título foi embora, você realmente fica pensando o que poderia fazer melhor, o gol que poderia fazer, o que poderia ter feito de melhor.”
O apoio familiar, dos amigos e da Nação
Após o apito final daquela final, o que milhões de rubro-negros viram na TV foi um Andreas desolado, aos prantos. Por isso, um dos primeiros apoios que o volante recebeu foi dos próprios jogadores. Afinal, quem não se recorda do abraço de David Luiz e Renato Gaúcho no Andreas? Assim como no último 27 de novembro, o jogador também chorou ao comentar sobre esse momento.
“Foi incrível o jeito como eles me ajudaram, principalmente o David, me consolando e falando também sobre a situação que aconteceu com ele (Andreas chora)… Foi incrível mesmo o que eles fizeram por mim, o Renato também. Todo mundo foi incrível. A torcida também, e foi aí que eu vi e falei que esse clube é diferente”, contou
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Assim como em 2019, a partida pós-final da Libertadores foi contra o Ceará. Mas, dessa vez, o clima era mais triste como dois anos antes. A preocupação interna era com a reação da torcida com Andreas em campo, mesmo assim ele quis ir para o jogo. E a Nação apoiou muito o atleta naquela partida.
“No jogo contra o Ceará (primeiro após a final), muitas pessoas me perguntaram se eu queria jogar, se eu estava bem. Eu não estava bem, mas não queria fugir da responsabilidade. Sei o que eu fiz, minha intenção nunca foi essa, todos perto de mim sabem o quanto eu sofri e falei: “Vou jogar, minha responsabilidade é dentro de campo e isso não vai mudar. Vou jogar”, lembra Andreas.
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Todo jogador do Flamengo tem três famílias: a do elenco no Ninho; e outra de 42 milhões espalhados mundo afora. Além disso, tem a mais importante, a que acompanha o jogador 24 horas. A última foi fundamental para Andreas se recuperar naquela semana pós o 27 de novembro.
“Na primeira semana, minha família me ajudou bastante, a minha mulher… Mas agora tento pensar em coisas positivas. Aquele lance não vai apagar o que eu fiz pelo Flamengo antes e o que eu posso fazer ainda. Sou maior do que somente um lance que aconteceu”, desabafou.
O Andreas Pereira pós-final
Desde aquele dia, a relação Andreas-torcida nunca voltou a ser mesma. Mas não é por falta de empenho do volante. Desde então, a torcida vem marcando o jogador por alguns erros que levam ao gol adversário logo em seguida. Contudo, o camisa 18 discorda dessas críticas.
Eu sou um jogador que tem que tomar certas decisões dentro de campo para o nosso time. Às vezes, um passe para o atacante fazer um gol e nunca vou deixar de tentar esse passe. Vou tentar o meu melhor e essa pressão só existe de fora. Eu não sinto. Todo mundo que conhece futebol e sabe analisar, vai ver que não foi por erro meu (gols contra Vasco e Atlético-GO). Futebol é um esporte coletivo. Se toda bola que alguém perder sair um gol… Não é assim que funciona. Para essas coisas, não fico preocupado. Sei que é mais fácil falar que o Andreas Pereira errou, todo mundo vai querer ler isso, vai dar mais click e atenção, mas estou tranquilo. Sei na minha cabeça o que é o futebol”, retrucou.
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Por isso, muita se questiona sobre o jogo mental de Andreas Pereira. Mas, como ele mesmo se define, o volante está “tranquilo”.
“Quando eu entro em campo, não escuto nada. Sou eu mesmo. Falo muito com meu pai e amigos meus que no início foi difícil. Eu falava que não sabia se conseguiria virar a página e jogar tranquilo. Mas nos treinos eu já senti isso e na minha cabeça estou tranquilo. Pô, eu lembro do que aconteceu, claro, mas sobre pressão estou tranquilo. As pessoas podem falar, criticar, falar que estou sentindo o fardo, mas estou tranquilo e sei que tenho que continuar dessa forma para reverter”, garantiu.
A negociação com o Manchester United
A chance do Flamengo comprar Andreas Pereira em definitivo é quase zero. A informação é do jornalista Venê Casagrande. Se antes havia um desejo pela permanência, hoje o clube já reavalia o acordo e há concorrentes pela contratação do jogador.
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No entanto, a desistência não é tão simples assim. Afinal, o Flamengo tem um acerto fechado de 10 milhões de euros com o Manchester United, um dos maiores clubes do planeta. Ou seja, caso desista da transação, o Rubro-Negro corre riscos de “se queimar” perante o mercado internacional. Para se ter uma ideia, o departamento de comunicação do clube tem as artes prontas do anúncio de permanência de Andreas prontas desde fevereiro.
“Estou tranquilo e focado. Sei que tem essa indecisão. Tenho também que conversar sobre isso com as pessoas perto de mim e dentro de campo estou tranquilo. Sei que pode ser resolvido daqui a um mês, no final antes de ir embora… Mas estou tranquilo e pensando sempre no próximo jogo”, falou Andreas pela primeira vez sobre o caso.
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O acordo entre Flamengo e Manchester United gira em torno de 10 milhões de euros, mas não houve anúncio oficial da contratação ainda. Além disso, o novo compromisso do meio-campista com o Rubro-Negros está fechado em cinco anos. O negócio recebeu muitas críticas da torcida, porque alguns torcedores consideram o valor muito alto.
“Não fico prestando muita atenção nessas coisas, mas todo mundo sabe que eu priorizei o Flamengo. Todos no clube sabem disso. É difícil eu falar sobre meu próprio valor, mas um jogador do Manchester United por 10 milhões de euros… É para ficar mais barato? Estou fazendo o meu esforço, mas não posso opinar se é muito caro ou barato. Às vezes, o jogador quando é muito barato eles pensam: ‘Hum, alguma coisa não está certa’. Então, jogador caro é bom”, avaliou.
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Continuando ou não, Andreas sintetizou o sentimento dessa sua passagem pelo Flamengo até o momento.
“Frustração não. Vim para o Flamengo para mostrar meu futebol e vou mostrar muita coisa ainda. Claro que fica a decepção de não ter ganhado os títulos, com certeza, mas sempre tentei mostrar o meu valor dentro de campo e a torcida reconheceu. Não é por um lance que isso vai por água abaixo”, pontuou Andreas.
Protesto do Ninho
Há exatos sete dias, Andreas passou pelo primeiro episódio de protesto em Centro de Treinamento no Brasil. Com “a decepção de não ter ganhado os títulos”, o jogador entende que a torcida compartilha desse sentimento. Entretanto, ele ressalta uma condição nesses protestos: sem violência ou agressão.
“Entendo o lado da torcida, a frustração. Não ganhamos o título carioca e eles sentem mais como algo para começarmos o Brasileiro talvez com mais vontade, para ficar mais ligado. Desde que não tenha violência ou agressão, entendo os torcedores pelas cobranças. Sabemos o que temos que fazer e com a força da Nação temos que trabalhar juntos. Se ficar cada um de um lado, vai ser difícil. Foi a primeira vez que passei por isso. Já sabia que a torcida estava lá, fui encarar, abaixei a cabeça e passei. Vamos sentir na pele e buscar a vitória. Não tem jeito”, disse.
O brasileiro que fala dois Flamengos diferentes
Embora seja nascido na Bélgica, o brasileiro Andreas deixa claro que é brasileiro e quer ser reconhecido como. Por isso, não gosta de ser considerado belga. Fato é que o jogador fala Flamengo — idioma do sul belga — e fala do Flamengo para as pessoas ao seu redor.
“Sempre falei para meus amigos e para o Flamengo que sempre priorizei e que o Flamengo é muito importante para mim. Precisava do reconhecimento e do carinho do povo brasileiro. Minha família toda é brasileira, eu sou brasileiro, e estava perdendo essa conexão com o povo brasileiro. Por isso, tive a decisão de vir jogar no Flamengo”, revelou.
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137 dias separam a final da Libertadores de 2021 e a primeira entrevista de Andreas Pereira após aquele dia. O brasileiro reconhece que demorou a falar sobre, mas dá uma justificativa.
Demorei a falar porque sempre coloquei na minha cabeça que vim para o Flamengo jogar bola e quero deixar tudo fora para ficar focado no futebol. Quero apenas treinar e jogar, por isso não tinha dado entrevistas. Quero só bola e vamos ver o que vem pela frente”, explicou.
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No dia da publicação dessa matéria, Andreas completa 238 dias desde que vestiu rubro-negro. Como diria a música, “o que importa é que emoções eu vivi”. No entanto, para o futebol, claro que importa se “chorei ou sorri”. No meio dessa montanha de russa de emoções que foi essa passagem até aqui, Andreas Pereira responde uma das perguntas mais difíceis da humanidade: “O que é o Flamengo?”:
“Tenho muitos amigos que sempre me falaram: “Vem jogar no Flamengo”. E mostravam como é o clube. Desde o primeiro momento, eu sabia e agora sei sentindo. É um orgulho fazer parte deste clube. O objetivo claro que era ganhar troféus e títulos com o clube. Infelizmente, o ano passado não foi como esperávamos. Faz parte do futebol. Agora, é colocar a mente em frente e alcançar os objetivos”, finalizou.