Para salvar suas cabeças, Diretoria e Tite nos colocam na guilhotina

22/09/2024, 08:13
Atualizado: 23/09/2024
Adenor Tite, técnico do Flamengo, observa antes da partida entre Botafogo e Flamengo no Brasileirão 2024, no Estádio Olímpico Nilton Santos, em 18 de agosto de 2024, no Rio de Janeiro, Brasil.

Ontem, dia 21 de Setembro de 2024, uma coisa inusitada aconteceu. O Clube de Regatas do Flamengo assumiu de maneira oficial sua desistência do campeonato brasileiro. Ao contrário do que a Novilingua orweliana da nota diz, a medida de não mandar 12 jogadores para o jogo contra o Grêmio, significa a demonstração clara de que o campeonato não tem mais a menor importância.

Essa é, sem dúvida, uma mudança impressionante de postura pública dessa diretoria. Em 2019, por exemplo, Abel Braga se demitiu após receber a ordem para não deixar o Brasileiro em segundo plano. Já em 2020, restou a Ceni apenas brigar pelo campeonato. Em 2021 e 2022, a pressão para disputar as três frentes aumentou, embora Renato e Dorival dessem sinais de que não seguiriam esse caminho.

JOÃO LUIS JR.: Não há caminho para o Flamengo que não passe pela demissão de Tite

E, finalmente, em 2023… Bom, em 2023 Sampaoli estava na beira do gramado, então pouco importava o que iríamos priorizar. Em 2024, entretanto, a diretoria tomou a decisão oposta e a comunicou oficialmente, com técnico e diretoria assumindo juntos os ônus e bônus dessa escolha.

Muitos podem dizer que foi uma decisão acertada, afinal, estamos às portas de sermos eliminados pelo Peñarol e talvez o Brasileiro já tenha sido jogado no lixo com a pífia campanha realizada até aqui.

Outra parte da torcida e imprensa dará razão à escolha por conta dos “problemas logísticos” de se jogar no Rio Grande do Sul nesse momento – especialmente aos jornalistas que adotarem essa linha, cumpre lembrar qual era a opinião deles quando o Renato Gaúcho fazia a mesma coisa no Grêmio.

Mas a verdade é que isso é o modus operandi do Tite há muito tempo. Trabalha com a ideia de “pontos perdíveis” há muito tempo. Jogos fora, contra adversários grandes, são encarados como reveses aceitáveis. Exemplo disso foi a derrota para o São Paulo. Teoricamente, é uma estratégia que pode dar certo caso você faça seu dever de casa e se imponha fora contra os mais fracos. O que não fizemos.

Rodrigo Dunshee de Abranches participa de cerimônia no Flamengo junto do presidente Rodolfo Landim
Abandono no Brasileiro e risco na Libertadores: prejuízo para Landim eleger Dunshee. Foto: Divulgação/ Flamengo

Se o Flamengo ainda conta em ser campeão brasileiro, deveria se concentrar em uma reta final de erro zero, parecida com 2020. Mas aí um elemento importante entra na equação: o prejuízo dos que tomam as decisões no Flamengo.

Seria catastrófico para Braz que o Flamengo fosse eliminado da Libertadores três dias antes das eleições. Já Landim, teria sua sucessão ainda mais ameaçada, enquanto Tite talvez sequer chegasse ao final da temporada empregado, correndo o risco de no espaço de um ano sair de “melhor técnico brasileiro” para “fracassou com o melhor elenco do país”.

Cumpre a pergunta óbvia: pode um clube como o Flamengo, que se quer hegemônico, a despeito das besteiras feitas pela diretoria, abdicar de lutar pelo campeonato nacional? Pode um clube com elenco, estrutura, orçamento, torcida e tudo mais para ser campeão, tratar como “ok” a possibilidade de estar, a 11 rodadas do final, 11 pontos atrás do líder? Volto a lembrar que alguns que tratam isso com naturalidade hoje, antes tratavam como um grande absurdo que o Flamengo não liderava o campeonato há algum tempo.

Dessa forma, concluiram que o melhor para eles era o foco total no jogo em Montevidéu. É a jogada final para se salvarem. E pode custar muito caro, pode custar mais uma temporada. Churchill, quando às vésperas da Segunda Guerra o governo inglês fez um acordo nefasto com o governo alemão: Entre a desonra e eliminação, nossa direitoria escolheu a desonra. Mas pode ter também a eliminação.