"Mas onde foi parar o dinheiro"? - Os R$ 70 milhões e o "ano mágico"

08/01/2017, 08:37
Atualizado: 01/11/2023

Poucas viradas de ano foram tão recheadas de boas notícias para o Flamengo: o Centro de Treinamento profissional está finalmente pronto depois de três décadas; o Flamengo fechou um excelente contrato de patrocínio, talvez o maior de que se tem notícia na história do futebol brasileiro, além de três outros acordos de menor relevância; a licença para a construção da arena multiuso na Gávea enfim foi concedida; já estão em andamento as obras de um belo estádio provisório que nos permitirá jogar no Rio durante a temporada mesmo com o imbróglio do Maracanã; enfim conseguimos contratar Conca, antigo sonho de consumo rubro-negro, sem precisar pagar nenhum centavo pelo empréstimo - e nossa estrutura ainda foi um TRUNFO e não um ponto negativo na negociação, coisa impensável até dois anos atrás; temos em campo na Copinha o maior prospecto de craque do futebol brasileiro desde Neymar, e quem diz não somos nós. E devo ter esquecido de alguma coisa, tantas foram as novidades positivas desde que a bola parou de rolar, em dezembro.

Dentro de campo, terminamos o ano com a nossa melhor pontuação desde que se disputa o Campeonato Brasileiro em pontos corridos. Perdemos apenas três dos últimos 26 jogos do campeonato. A defesa sofreu uma média inferior a um gol por partida pela primeira vez desde 1990 - tempo em que a fórmula do Campeonato Brasileiro ainda fazia enfrentar times bem inferiores ao longo do campeonato. Todos os jogadores titulares remanesceram, uma verdadeira raridade após uma boa campanha e com uma Libertadores a disputar. O técnico foi mantido. E ainda chegou um reforço do calibre de Conca, mesmo que só possa estrear em abril, maio ou junho.

Diante desse cenário, era de se esperar que a torcida estivesse tranquila e otimista neste início de temporada. Mas um rápido passeio pelas redes sociais desmente essa opinião em poucos minutos. Movida por duas falácias - a de que haveria uma promessa de R$ 70 milhões em caixa para gastar com o futebol e que o tal "ano mágico" certa vez mencionado deveria significar uma farra do boi em termo de contratações - os mais radicais insuflam os desatentos a se revoltarem contra a diretoria "sovina" que se nega a "abrir a mão" para trazer reforços e vaticina um fracasso retumbante na temporada que está por se iniciar.

Fazendo contas

Já que os dirigentes do clube têm mais o que fazer do que lidar com essa revolta sem sentido, eu, que não tenho, me dedico aqui a tentar colocar os pingos nos is. Primeiro, os tais R$ 70 milhões. Vamos reconstituir. Em março do ano passado, após a publicação do balanço de 2015, o vice-presidente de Finanças Claudio Pracownik declarou o seguinte à revista "Época":


 
 
Naturalmente, o número foi para o título da reportagem na revista.
 

 
 
Distorce daqui, distorce dali, criou-se na FlaTT o mito que Pracownik teria prometido R$ 70 milhões para gastar em reforços para o futebol em 2017.

Apesar de a diretoria reiterar em todas as oportunidades que não tem dinheiro sobrando para investir em contratações, a ficha da FlaTT só caiu quando o mesmo foi repetido pelo jornalista Mauro Cezar Pereira, da ESPN. E enquanto há duas semanas todos se divertiam para sacanear o jornalista que questionava "de onde vem o dinheiro" para pagar o Conca, parte dos mesmos agora cobra "para onde foi o dinheiro?". Como se Pracownik tivesse mentido ou, pior, decidido guardar o dinheiro no banco, porque sim.

Não é bem assim. Vamos à frase de Pracownik: "Ano que vem terá um fluxo de caixa ainda maior, de R$ 70 milhões". Vamos então ao orçamento aprovado em dezembro pela Comissão de Administração do Flamengo.

Repare que o orçamento prevê R$ 34 milhões em investimentos e R$ 40 milhões a mais em despesas gerais do que em 2016. Some as duas cifras e temos mais que os R$ 70 milhões previstos em 2016. Ou seja, Pracownik foi certeiro em sua previsão, os R$ 70 milhões estão aí.

E por que R$ 70 milhões a mais para gastar não significam R$ 70 milhões em reforços? Essa é bem fácil de entender.

Aí chegamos ao tal "ano mágico"- aquele que segundo alguns foi adiado mais uma vez, para 2018. Pelo contrário: o "ano mágico" foi antecipado e começou em julho do ano passado, mais precisamente no dia 19, quando o Flamengo acertou a contratação do meia Diego, antecipando gastos que não estavam previstos. Pegue os R$ 600 mil mensais gastos em Diego, multiplique por 18 - eu ajudo, dá R$ 10,8 milhões - e você começa a achar o destino dos R$ 70 milhões. Junte os cerca de R$ 5 milhões investidos no passe do zagueiro Donatti, outro gasto não previsto pós-entrevista de Pracownik, e os R$ 300 mil mensais pagos por um ano a Leandro Damião e já chegamos a quase R$ 20 milhões dos R$ 70 milhões.

Acrescente-se aí o aumento da folha salarial previsto para abrigar a chegada de Conca, Trauco e outros reforços que devem vir apenas pelo salário, como é o caso de Rômulo, além das renovações com aumento de jogadores que se destacaram em 2016, como Alex Muralha e Willian Arão. O aumento na folha seria da ordem de 20%, ou cerca de R$ 2 milhões por mês - com 13o, são R$ 26 milhões a mais na conta, ou R$ 46 milhões dos tais R$ 70 milhões.

Pois bem: além da folha salarial, o investimento no futebol profissional também inclui os gastos, que Pracownik não poderia prever em março do ano passado, com o estádio da Ilha, casa do Flamengo na temporada: serão R$ 7 milhões em 3 anos pelo aluguel à Portuguesa - ou cerca de R$ 2,3 milhões em 2017 - e R$ 12 milhões na reforma: R$ 14 milhões que já nos levam aos R$ 60 milhões naquela conta.

Saindo do futebol profissional e indo para a base: atendendo a recomendação da consultora Double Pass, que cuida do planejamento de longo prazo de ninguém menos que a seleção alemã, o Flamengo elevará os gastos com a categoria de base em nada menos que R$ 5,5 milhões na temporada. Além disso, gastará R$ 16 milhões para a construção dos módulos do CT destinados aos garotos. Exclua-se da conta os R$ 4 milhões extras conseguidos com a venda da casa de São Conrado e que serão investidos no CT, restam mais R$ 17,5 milhões na conta - e eis que já passamos dos R$ 70 milhões.

Acrescente-se aí o acordo recente com Romário, que consumiu R$ 6 milhões que poderiam ser investidos em jogadores que não vestiram a camisa do clube pela última vez no século passado, e a decisão política de não renovar o contrato com a Globo para o Campeonato Carioca - que rendeu R$ 9 milhões ano passado e poderia render ao menos R$ 15 milhões este ano - e vemos que Pracownik entregou, inclusive, mais que os R$ 70 milhões que prometeu.

Trabalho duro sem truques de mágica

Sobre o "ano mágico", eu prefiro esperar. Por "ano mágico", entende-se que o Flamengo conquistará títulos -e ainda que não contrate mais um único jogador, as sementes estão mais do que plantadas para que os frutos comecem sim a ser colhidos já nessa temporada. A ideia de que é preciso ter um esquadrão para ganhar a Taça Libertadores é errônea - basta constatar que equipes humildes como Nacional do Paraguai e Independiente del Valle foram finalistas recentemente, e que as melhores campanhas brasileiras nas duas últimas temporadas foram do São Paulo, que de resto teve um péssimo ano em 2016, e do Internacional, com a mesma base do time que acabaria rebaixado este ano.

Como eu escrevi ontem no Twitter, o Flamengo tirou a sorte grande de ter uma diretoria não populista e que resiste aos apelos da torcida para gastar um dinheiro que não tem. Quem viveu o annus horribilis de 2012 - e eu fiz uma pequena compilação das manchetes negativas que se respondiam dia a dia contra o Flamengo a partir deste tweet abaixo, que eu só recomendo para quem tem estômago forte - jamais vai reclamar de uma diretoria que deixa de gastar o que não tem em reforços para pagar dívidas e investir em estrutura.

Se o ano de 2017 será ou não mágico, saberemos em dezembro. Mas uma coisa é certa: a mágica não começou pelo truque do desaparecimento do dinheiro. SRN e Feliz 2017!

 
Rodrigo Röztsch é jornalista e integra a Equipe Mundo Bola Informação. Também escreve no blog Cultura RN.
Siga-o no Twitter: @RodrigoRoztsch
 
 
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