Daniel Giotti: “O mau humor de chuteiras”, o livro pelo qual todo amante do futebol esperava

Colecionar frases sobre o futebol, uma ideia tão óbvia para um livro tão necessário, não é assim tão corriqueiro no Brasil. Algumas antologias existem, mas demais até agora. Pois bem, Marcelo Dunlop rompeu essa inércia brasileira e transformou um amontoado de frases no delicioso livro “O mau humor de chuteiras”.
A excelência do livro gerou uma ponta de inveja, boa inveja, até no craque das biografias e das antologias, Ruy Castro – um destes apaixonados por futebol de humor sarcástico -: “O problema não é que, neste livro, Marcelo Dunlop tenha reunido várias frases que eu gostaria de ter dito. O que eu queria era feito este livro”.
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Marcelo foi atrás de frases de jogadores – craques, ilustres, desconhecidos e talvez de alguns perebas -, cartolas, técnicos, juízes e de toda gente que falou sobre futebol, até de alguns avessos a ele como Lima Barreto
Uma jornada de seis anos pesquisando, afinal, não é fácil descobrir, por exemplo, se uma frase de fato foi dita por Neném Prancha, o “filósofo do futebol” na alcunha de Armando Nogueira. O disse-me-disse, ainda mais próprio doutros tempos, da época do futebol raiz, dificulta(va) saber a real autoria duma frase.
Mais difícil ainda é descobrir as frases de um personagem como o Marajara, da tribo piratapuia, treinador amador do time amazonense Canarinho e discípulo de Neném Prancha. Como Marcelo as descobriu? Googlei e não achei.
Encontram-se no livro também, é claro, as frases icônicas de grandes jogadores e grandes escritores, como Chico Buarque, Luís Fernando Veríssimo e Nick Hornby; Cruyff, Maradona, Pelé; e, ainda, aqueles com mau humor crônico como Muricy Ramalho, Leão … Ou seria “só” sarcasmo, cena de quem veste um personagem e não mais muda de roupa?
Tudo isso numa divisão entre 23 sessões onde Marcelo colocou as frases, seguindo as letras do alfabeto – tirante K, W e Y -, sempre alusivas ao futebol, como “C de Copa do Mundo” e “P de Pelada” e outras menos óbvias como “Q de Quizumba” e “V de Vídeo”.
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É uma ordem bem própria… Marcelo estaria nos relembrando a máxima de que futebol não tem lógica, uma de suas graças é que nele o melhor pode perder com relativa frequência. Por que, Marcelo, não usar também as três letras, tão comuns nas iniciais de palavras em inglês, o idioma da terra onde originou o futebol? Ou não, papo para uma crônica.
Que tal também K de “Keeper” para falar de goleiros e “Y de Yards”, para comprovar uma vez mais que futebol não é o football dos norte-americanos, aquela coisa chata e que virou modinha para as novas gerações?
Quando uma frase é boa e não se sabe de quem é? Simples: ele coloca como do Anônimo.
Para exercer um pouco de mau humor, próprio de quem ama futebol, só deixo uma crítica: como assim Shakespeare e Walter Scott falaram sobre futebol? Marcelo teria resposta e baseada em muito livro bom sobre história de futebol, mas quem sabe pode ele para as próximas edições criar um verbete futuro W de Shakespeare para deixar nós, amantes do “esporte bretão”, procurando lógica nesta graça infinita que tem o futebol?
Ficha técnica:
O mau humor de chuteiras
Marcelo Dunlop
Editora Mórula
224 páginas
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