
Antes de começar é preciso deixar claro que esse texto não tem como objetivo julgar se as novas regras são boas ou ruins, apenas quero mostrar como seríamos representados. Assim que saíram as notícias, surgiram opiniões e memes (que foram ótimos, digassidipassagi) falando que seríamos representados por qualquer um, então resolvi averiguar. E para isso precisamos fazer um exercício de imaginação.
Supondo que as novas regras valessem desde 2006, como estaríamos sendo representados nas competições internacionais? Resolvi dividir a análise em vários pontos para não deixar nenhum fator escapar. Claro que as coisas seriam diferentes se tivessem vagas em disputa, mas essa é uma variável que não podemos mensurar, então será descartada.
As novas regras:
- Os três melhores do Brasileirão estão classificados para a fase de grupos da Libertadores;
- Os próximos três melhores do Brasileirão estão classificados para a pré-Libertadores, um mata-mata de dezesseis clubes com quatro vagas em disputa;
- (A regra a seguir não necessariamente é verdade, pois a CBF ainda vai definir o critério de classificação, mas o presidente da Conmebol já deixou claro o critério ideal) Os próximos seis melhores do Brasileirão estão classificados para a Copa Sul-Americana;
- Os campeões da Copa do Brasil, Libertadores e Sul-Americana garantem vaga na fase de grupos da Libertadores e não tiram as vagas em disputa no Brasileirão.
Quais clubes nos representariam nas competições?
Na tabela abaixo nós temos quantas vagas cada teria, nesses 10 anos, em cada competição. L.G. é a Libertadores na fase de grupos, P.L. é a fase preliminar da Libertadores e S.A. é a Sul-Americana.
Como o Sport foi campeão da Copa do Brasil de 2008, ele seria o único representante na fase de grupos da Libertadores sem muito poder. O atlético-PR vem se ajustando nesses anos e creio que teria força para nos representar bem, como fez em 2014 quando só não passou da fase de grupos por causa de um ponto. Na fase preliminar já aparecem mais clubes menores, já que a pontuação mínima pra essas vagas é menor.
Apesar do Botafogo e Vasco atualmente não terem muita força - o cruzmaltino tem mais chances de se reerguer – e, do meu ponto de vista, o Botafogo já ter sido ultrapassado pelo Atlético-PR, estamos analisando os clubes de 2006 a 2015. Por enquanto vamos dividir as equipes nos tradicionais 12 grandes clubes, um grupo secundário com Atlético-PR, Bahia, Coritiba, Goiás, Sport e Vitória, e um grupo com os restantes. Agora vamos analisar a representatividade de cada grupo nessas vagas conquistadas.
A porcentagem é calculada pegando o número de vagas conquistadas pelo grupo e dividida pelo total de vagas no período.
Vejam que a presença do Sport e do Atlético-PR na fase de grupos foi um ponto fora da curva. Como a Pré-Libertadores pega clubes com menor pontuação e não inclui campeões, a exigência de pontos cai, logo os clubes menores tem mais chances. Na Sul-Americana as vagas para o grupo secundário iria aumentar bastante, mas é bom lembrar que, se os 7 dos 12 fossem para a Libertadores (6 melhores e campeão da CdB), restariam 5 para pegar as 6 vagas da nossa segunda maior copa internacional. Quando os grandes conquistassem as copas internacionais, a chance dos pequenos cresceria.
Agora você acha injusto comparar grupos de tamanhos diferentes? Na verdade é sim, então vamos ver qual a proporção de vagas por equipe do grupo. Aqui dividimos a quantidade de vagas do grupo pela quantidade de equipes constituintes dele.
Vejam que a proporção fica mais equilibrada justamente na disputa de vagas pela Sul-Americana, afinal, pelo menos 7 grandes devem garantir a sua participação na libertadores. O grupo "outros" aparece com uma proporção de 1,25 porque só contei as equipes que conquistaram as vagas, se fosse considerar as que não conquistaram e que se encaixariam nesse grupo, a proporção seria bem menor.
E qual seria a pontuação necessária para conquistar as vagas?
Se tirarmos as pontuações de quem foi campeão da Copa do Brasil, Sul-Americana ou Libertadores, a média de pontos para cada vaga fica da seguinte forma:
Com 10 rodadas para o fim desse Brasileirão, a Ponte Preta já tem 39 pontos, com mais duas vitórias e dois empates ela já garantiria sua participação na Sul-Americana. O Flamengo e Palmeiras certamente já estão garantidos na Libertadores, mas só na preliminar. A folga para os rivais é boa e tem muito campeonato, mas é preciso chegar aos 66 pontos. Não se enganem, ir para a Pré-Libertadores se tornou mais perigoso e pelo menos um dos nossos deve cair nessa fase, mesmo com time bom.
Os nossos representantes seriam sempre os que terminam na melhor colocação?
Nessa tabela temos a média de pontos por posição nesses 10 anos e quantas vagas cada posição recebeu. Por exemplo, o 4º colocado, ao logo desse período, conquistou quatro vagas direta na Libertadores e seis na Pré-Libertadores. A média dos classificados foi calculada somando todos os pontos conquistados pelas equipe que conquistaram uma determinada vaga e o total de vagas conquistadas.
Não podemos garantir que sim, pois um clube pode ser campeão da Copa do Brasil e ir mal no Brasileirão, como foi o Palmeiras em 2012 no ano do seu segundo rebaixamento - apesar da péssima classificação no Brasileirão, em 2013 se ajustou e conseguiu chegar nas oitavas de final, perdendo a classificação por um gol. Na maioria das vezes os campeões da nossa copa nacional ficam no meio da tabela, mas esse problema é causado pelo péssimo calendário onde a equipe precisa escolher se prioriza uma ou outra competição. Quem ganhou título internacional costuma ir melhor. Um elenco mais qualificado pode acabar superando esse desafio de jogar sem descanso. Por esses fatores algumas vagas da fase de grupos estão distribuídas pela tabela.
Para a Pré-Libertadores vemos um claro acúmulo entre o 4º e 7º, para a Sul-Americana o intervalo de classificação fica entre o 8º e 14º. Agora prestem atenção na pontuação média da última vaga: 47 pontos - só 5 pontos a mais que a média do primeiro no Z4. Até as últimas rodadas um clube pode escapar do rebaixamento e tentar descolar uma vaga em uma copa internacional. Não deve ter mais jogos para cumprir tabela.
No meio desse caos administrativo que vivemos, os médios e pequenos conseguem se destacar em algumas ocasiões, mas ainda assim o domínio permanece com os doze grandes. Com uma futura adição do Fair Play Financeiro, tão pedido por nós flamenguistas, a tendência é que os clubes mais tradicionais se destaquem quando estiverem organizados, o que deve tornar a participação deles ainda mais representativa. Aos clubes pequenos e médios cabe a inteligência de aproveitar o momento de transição que virá.