Mais que um jogo, Flamengo x Atlético-MG se tornou um duelo de narrativas

19/02/2022, 16:29
Atualizado: 01/11/2023
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Não seria nenhum desrespeito, nem aos outros grandes clubes do país nem à imprevisibilidade do futebol brasileiro, onde absolutamente qualquer coisa pode acontecer, dizer que atualmente temos três times que parecem posicionados um nível acima dos demais. Seja pela qualidade dos elencos, seja pelos valores investidos, seja pelo retrospecto nos últimos anos, Flamengo, Palmeiras e Atlético-MG começam a temporada 2022 aquecidos pelo fogo do favoritismo, com atenção renovada da mídia e vistos como os times que devem levantar as principais taças nacionais e continentais.

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E um dos primeiros confrontos da temporada entre estes favoritos deveria acontecer neste domingo, quando cariocas e mineiros se enfrentam pela Supercopa do Brasil, mas a verdade é que o duelo entre Flamengo e Atlético-MG começou bem mais cedo, seja pela polêmica em relação ao local da partida, seja pelas acusações mútuas, seja pelo debate não tão maduro entre dirigentes, que envolveu desde tuites até cartas formais de repúdio.

Flamengo celebrando sua maior conquista e cimentando sua ideia de gigantismo (Foto: CBF)

Mas a verdade é que a disputa entre a equipe da Gávea e o time de Lourdes, que já teve grandes capítulos nas décadas de 70 e 80, esfriou durante os 90 e 2000 e voltou à tona nos últimos anos em virtude do salto financeiro que ambos os clubes vivem, é tanto um conflito esportivo, que já viu Zico e Reinaldo e hoje encontra Gabigol e Hulk, quanto um conflito de narrativas, com dois clubes que escolheram maneiras bem diferentes de contar suas histórias e talvez precisem, em dados momentos, até mesmo se desapegar um pouco da visão de si mesmos que decidiram criar.

Porque de um lado temos um Flamengo que, desde muito cedo, decidiu que a sua história seria contada em termos de gigantismo. A maior torcida, atuando no maior estádio, acreditando que com sua camisa – quer dizer, seu manto, porque camisa é muito pouco – estavam jogando os maiores craques. Dentro da lógica rubro-negra, o Flamengo é sempre o favorito, o Flamengo sempre joga em casa, todo jogador do Flamengo é necessariamente um craque e tudo que acontece no Flamengo tem repercussões universais. “Brasileiro é obrigação”, “Mengão Malvadão”, “Somos todos menos alguns”, o léxico preto e vermelho é construído pela exaltação, a ostentação, num universo onde pessimismo, dúvida e ceticismo parecem existir apenas nas margens, como traço de um ou outro torcedor mais traumatizado pelas derrotas da vida.

Reinaldo, um dos maiores da história do Atlético-MG, no Mineirão que o consagrou (Foto: CBF)

Já o Atlético-MG parece ser um time que decidiu contar sua história de maneira quase oposta. Existe na narrativa atleticana mineira sempre a ideia de superação, a ideia do oprimido que se rebela contra o opressor, a ideia do outsider que se orgulha de ser resistência diante de um mundo que constantemente se vira contra ele. Seja a ideia de estar contra o eixo Rio-São Paulo, seja o debate sobre arbitragens antigas e atuais, seja as constantes queixas de que seria prejudicado pela CBF, Globo ou demais instituições, a história que parece ser contada pelo clube de Belo Horizonte é a de um Davi que constantemente se ergue contra os Golias da bola, um time de viradas históricas, um time que busca arrancar a vitória do abraço apertado da derrota.

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Mas a verdade é que tanto Flamengo quanto Atlético-MG, tanto o clube que se orgulha de ser sempre favorito quanto o time que propositalmente cultiva sua fama de azarão, talvez precisem aprender a, de tempos em tempos, se desvencilhar das suas próprias narrativas. 

Nós porque, em diversos momentos da nossa história, fomos vítimas da nossa própria confiança e do nosso próprio senso de superioridade. Sejam times que entraram de salto alto, sejam diretorias que se mostravam incapazes de cooperação com outros clubes e federações, seja o pensamento mágico rubro-negro de que apenas o peso da nossa camisa vai resolver tudo, em diversos momentos o Flamengo teria se beneficiado de pés mais no chão, confiança mais contida, a percepção de que ser gigante não te torna invencível ou à prova de erros.

Aquele jogo em 1981 que pra muitos atleticanos mineiros nunca terminou e pra gente foi etapa em algo bem maior (Foto: Revista Placar)

Da mesma maneira, cabe ao Atlético-MG talvez perceber que a narrativa de Davi se torna um pouco menos sustentável quando você já se tornou um Golias. Como pode aquele que talvez seja o clube mais rico do Brasil, atual campeão dos dois principais títulos nacionais, manter a ideia de que é apenas um pequeno ginásio no interior de Minas brigando contra imensas forças ocultas? Como pode ser tão perseguido pela mídia o clube cujo maior investidor é dono da principal rádio do estado e sócio de um canal de televisão como a CNN Brasil? É complicado vender uma narrativa de rival do sistema quando você se tornou um dos principais vencedores exatamente dentro desse sistema.

Então ainda que toda a polêmica da semana tenha servido para apimentar uma partida que talvez pudesse não valer tanto assim, seria interessante, para os dois clubes, que por mais que ambas as suas histórias sejam sim bonitas e vencedoras, um conseguisse olhar um pouco para o outro entender que existem ali, por trás da rivalidade, lições que talvez possam ser aprendidas. Se possível aprendidas depois que o Flamengo levantar a taça da Supercopa, claro.


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