'Esquecimento' até caso Robinho explica passagem de Cuca por Flamengo e outros clubes

26/04/2023, 14:28
Atualizado: 01/11/2023
Cuca terá problemas para escalar o atlético-mg contra o Flamengo

Um crime de estupro em 1987 voltou às manchetes e está levando a uma enorme pressão para a demissão do recém-contratado técnico Cuca, do Corinthians. Na esteira do caso, corintianos se perguntam por que o acontecimento não afetou a passagem do técnico por rivais como o Palmeiras, e até mesmo o Flamengo.

Cuca teve duas passagens como técnico do Fla: em 2005 e 2009. Na época, não se falava sobre sua condenação por estupro na Suíça. O presidente na ocasião, Marcio Braga, disse ao UOL que não sabia do caso na época: “Nada, nada. Não sabíamos”.

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A explicação não é absurda: Cuca foi condenado por participar do estupro coletivo de uma menina de 13 anos durante uma excursão do Grêmio à Suíça, em 1987. O tratamento do caso na imprensa brasileira, porém, foi muito diferente na época. Cuca e seus companheiros de elenco foram tratados como heróis injustiçados quando foram liberados pelas autoridades suíças e puderam retornar ao Brasil.

Quanto ao julgamento, em 1989, o caso foi colocado em sigilo, e informações completas nunca chegaram ao Brasil. Apesar de condenado, Cuca não cumpriu pena e a sentença expirou em 2004, antes de sua primeira contratação pelo Flamengo.

Caso Robinho

O caso de estupro voltou para assombrar Cuca em 2020. Na ocasião, ele era técnico do Santos e defendeu a contratação de Robinho, condenado pelo mesmo crime na Itália. A partir daí, torcedores e jornalistas que se lembravam do caso de 1987 o apresentaram às gerações mais novas por meio de postagens em redes sociais e reportagens.

Assim, Cuca passou a ter que responder sobre o caso ao chegar em novos clubes. Mas a sua contratação pelo Corinthians, time de segunda maior torcida do Brasil, fez o caso ganhar nova dimensão. A reação de grande parte da torcida e até do time feminino contra a contratação fez a imprensa reexaminar o caso na Suíça e trazer novas informações que contrariam o discurso de Cuca.

“É um tema delicado pessoal meu. Faço questão de falar. Tenho muito vaga lembrança de tudo que aconteceu. Na época, eu tinha 23 anos. Lembro que uma menina subiu para o quarto, que tinha duas camas de casal e eu estava com colegas de clube. Só lembro das camas. Essa é minha participação no caso, eu sou totalmente inocente. Nunca toquei um dedo indevidamente em uma mulher. Respeitei e respeito todas as mulheres”, disse. Além disso, afirma também que a vítima não o reconheceu.

No entanto, após dar sua declaração, Willi Egloff, advogado da vítima, o desmentiu em entrevista ao UOL: “A declaração de Alexi Stival é falsa. A garota o reconheceu como um dos estupradores. Ele foi condenado por relações sexuais com uma menor”.

O papel da torcida do Flamengo

Se a torcida do Flamengo não teve oportunidade de se colocar contra a contratação de Cuca por desconhecer o caso na época da passagem dele, pode-se dizer que ela ajudou a recolocar o tema em evidência. Isso porque o Mulambas da Gente, frente feminina do movimento Flamengo da Gente, se mobilizou para que a CBF cancelasse a inscrição de Robinho no Campeonato Brasileiro, trazendo a primeira consequência séria para um condenado por estupro no futebol brasileiro e aumentando a atenção do clube sobre o assunto.

Pulgar

A torcida do Flamengo também protestou contra a contratação de dois atletas do atual elenco por suspeitas de violência contra a mulher. No caso do chileno Erick Pulgar, o clube justificou a contratação do atleta investigado por conivência em um estupro que teria ocorrido em sua residência. A Justiça chilena acabou arquivando o caso meses depois, mas Braz enfatizou:

“Todo mundo da diretoria tem filha, mulher e mãe. Se tem uma pessoa que tinha interesse de averiguar toda essa situação éramos todos nós aqui. E eu também tenho filho, e acho que ter um filho sendo acusado de algo que não procede é muito ruim”, disse Braz na apresentação do chileno.

Rossi

Já o goleiro Agustín Rossi, que assinou pré-contrato com o Flamengo no início do ano, foi alvo de protesto do grupo Flamengo da Gente por violência doméstica. Isso porque sua ex-namorada o denunciou em 2017, tanto na internet, quanto na delegacia. No entanto, não seguiu com processo judicial.

O Flamengo disse que não se pronunciaria sobre o caso antes de concretizar a contratação de Rossi, cuja chegada é esperada para julho.

Torcida impediu vinda de Cuca

Além disso, vale frisar que a Nação também atuou contra a chegada de Cuca. Isso porque houve especulação sobre a contratação dele após a demissão de Paulo Sousa, em 2022. Assim, os torcedores se movimentaram nas redes sociais, subindo hashtag contra a chegada do técnico. A Nação, aliás, se mostrou aliviada com a contratação de Dorival simplesmente por não ser Cuca.

Mas antes mesmo de fechar com o técnico campeão da Copa do Brasil e da América, os torcedores já enchiam as redes de críticas a Cuca. Os flamenguistas denotaram repulsa, a todo momento relembrando o caso de estupro.

Deturpação e machismo levaram ao ‘esquecimento’ do caso de Cuca

Mas como Cuca pôde comandar tantos clubes com calmaria? Na Jovem Pan, por exemplo, o debate aconteceu no Bate Pronto. Mauro Cezar explicou que os jornais suíços, na década de 80, só estavam disponíveis para pessoas na Suíça. Assim, os brasileiros não tiveram total acesso ao caso. O jornalista lembra que o advento da internet trouxe evoluções para a sociedade.

Hoje é possível, por exemplo, ler jornais antigos e de diversos países digitalizados. É muito comum encontrar artigos e todo histórico de publicações nos sites dos veículos, facilitando até mesmo a tradução via Google. Veja a opinião:

Mas certamente este não é o único motivo. Há diversos relatos de que o quarteto envolvido no estupro da menina de 13 anos desembarcou no Brasil como ‘heróis’. O advogado Gabriel Divan, por exemplo, mostrou lembrar nas redes sociais do episódio:

“Ao retornarem ao Brasil os acusados foram recebidos no aeroporto por uma multidão que os aplaudia, e xingava a vítima. Não como quem descobria que eles foram injustiçados e vítimas de uma farsa. Mas como quem acha ‘massa’ que eles foram lá e ‘fizeram o serviço’ de ‘homem'”, escreve.

No jornal Correio do Povo, o cronista Wianey Carlet escreveu: “Resta dar as boas vindas ao nosso doces devassos”.

Outra pérola machista da imprensa gaúcha da época saiu no jornal Zero Hora, de maneira escandalosa e quase sem escrúpulos: “Que a Justiça faça justiça e encare como realmente foi: uma travessura irresponsável e de total imprevidência dos seus autores quanto a sua ilicitude e consequências”. Dessa forma, com poucas cobranças, o caso caiu no esquecimento, sobretudo fora do Rio Grande do Sul.

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