Ele queria dar alegria para um povo, mas acabou dando felicidade para uma Nação

Mais do que passes, defesas e gols, o futebol é feito de histórias. O atacante predestinado que precisa de apenas um toque para decidir um campeonato, o garoto da base que deveria entrar pressionado mas joga como veterano, o quinto reserva que por uma série de acasos e coincidências se torna o titular que o time precisa no momento mais complicado da temporada.
E nenhuma história futebolística, nenhuma narrativa esportiva, é mais poderosa do que aquela que envolve um cidadão que ficou marcado por uma grande derrota, por uma imensa vergonha, por um fracasso histórico, se tornando parte de uma vitória marcante, de um sucesso grandioso, de um triunfo também histórico. Todo mundo gosta de uma volta por cima.
➕JOÃO LUIS JR.: Mesmo desfalcado, nesse domingo o Flamengo se recusou a aceitar a derrota
Então imagine um jogador que participou da maior vergonha esportiva já vivida pelo seu país. Quer dizer, não apenas participou, mas se tornou uma das principais faces, um dos nomes mais lembrados, um homem que acabou tendo a sua trajetória profissional intrinsecamente ligada a uma partida onde seu país não apenas foi eliminado de uma Copa do Mundo dentro de casa, mas foi humilhado, ridicularizado, desmoralizado, esculachado, colocado em uma situação que se tornou referência de vergonha e paradigma de fracasso.
Esse é David Luiz. Um zagueiro que já passou por Chelsea, Paris Saint-Germain e seleção brasileira, que já ganhou Champions League, Campeonato Inglês e Campeonato Francês, mas que ficou pra sempre marcado não apenas como um dos protagonistas do 7×1, mas também como o cara que, chorando em rede nacional, disse que queria apenas “dar alegria para o seu povo”, o tipo de declaração que, num mundo sem internet, seria apenas um momento de fragilidade e sinceridade, mas num momento onde o wi-fi funciona obviamente vai se tornar um meme daqueles que atravessam gerações.

Mas no futebol, toda história tem um segundo capítulo. E o zagueiro que no Brasil era lembrado por uma tragédia, por um vexame, decidiu que o clube mais popular do país era o lugar ideal pra tentar construir uma imagem que envolvesse mais vitórias, mais triunfos, e menos frases como “virou passeio”, “chegaram de novo” e “nem o torcedor mais pessimista poderia imaginar”.
E depois de vencer uma Libertadores e uma Copa do Brasil, hoje foi mais uma noite em que, quase dez anos depois de chorar por não ter conseguido dar alegria a seu povo, o zagueiro brasileiro que havia atuado por tão pouco tempo no Brasil, pôde viver a sensação de trazer felicidade pra toda uma nação, dessas maiores do que a população de todo um país.
➕ David Luiz revela fator determinante para bons resultados recentes do Flamengo
Porque novamente o Flamengo se viu numa situação complicada. Num jogo muito pareado diante de uma forte equipe do Bahia, a equipe rubro-negra chegou até os 48 minutos do segundo tempo empatada, um placar que a tiraria da liderança e cederia pontos pra um adversário direto na disputa pela primeira colocação, já que a equipe baiana também parece disposta a brigar pelo título nessa temporada.
Mas aí, num cruzamento de Gérson, quem aparece? Ele, o herói improvável, David Luiz. O homem que num dado momento parecia ter se tornado mais um terapeuta da base, um coach pessoal do Rodinei, mas recentemente decidiu lembrar a todos nós que também é um grande zagueiro, estava lá, pra resolver, pra decidir, pra cumprir sua promessa de dar alegria pra um povo. No caso, uma nação.
Com isso, o Flamengo de Tite, que tanto oscilou durante essa temporada, segue líder. E não apenas segue líder, como segue líder apesar dos desfalques, apesar das lesões, apesar da tabela maluca, e atuando não como a equipe rubro-negra indolente e confusa que já vimos meses atrás, mas como um bando de tarados que não aceitam a derrota como uma realidade, que não estão dispostos a negociar com o fracasso em nenhuma de suas formas, que não vão tolerar menos do que a ponta da tabela.
Uma postura que, obviamente, não é certeza de título. Mas que, com certeza, é que a mais te faz pensar num time campeão.