

Faça um esforço de memória: nos últimos, digamos, 15 anos, como estava o desempenho do seu time em janeiro e fevereiro? Os campeonatos estaduais estavam em suas fases iniciais e era comum ver times grandes tropeçando contra os pequenos.
Ou melhor, “janeiro e fevereiro” é um certo exagero. Janeiro era mês de férias, a temporada começava em fevereiro ou, no máximo, na última semana do mês.
Desde que os estaduais perderam protagonismo (e isso já tem uns 20 anos), esse momento era uma espécie de pré-temporada oficializada, para que os times fossem se arrumando os poucos. Em regra, não havia times exuberantes em fevereiro.
Recentemente, o começo da temporada abriu espaço para disputas um tanto mais encorpadas.
Em 2020, a CBF resolveu reeditar uma antiga disputa, a Supercopa Rei, envolvendo os vencedores do Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil do ano anterior. Esse torneio – e isso nem sempre é lembrado – é um evento comercial empreendido pelo empresário Luiz Estevão (dentre outras coisas, dono do jornal Metrópoles), de alta lucratividade, porque os ingressos são caríssimos, que conseguiu a chancela da CBF para promover a partida. Idealmente, deveria funcionar como abertura da temporada do futebol brasileiro.
Leia também do mesmo autor Como Filipe Luís virou o jogo ao expor Pedro e escancarar a cobrança no futebol brasileiro | Coluna do Walter Monteiro
Há também a Recopa Sul-Americana, entre os campeões da Libertadores e Sul-Americana. Já existe há mais tempo, desde 2003 (e já chegou a existir antes também), porém a data de disputa oscilou bastante. O mês de fevereiro se consolidou também em 2020 (com exceção de 2021, por causa da pandemia).
O Flamengo é um participante habitual da Supercopa Rei. Foram 7 edições e o clube esteve presente em 6 delas, tendo a conquistado 3 vezes. Já a Recopa o Flamengo disputou 3 vezes e ganhou apenas 1.
Não conheço um único rubro-negro que não quisesse ser campeão dessas taças ou que não esteja chateado com as perdas. Pessoalmente, vi ao vivo as derrotas, tanto em Brasília quanto no Maracanã, o que aumenta minha frustração.
Porém, é preciso ter em mente que o objetivo do Flamengo no ano não é ganhar absolutamente tudo. Há uma diferença grande entre desejo e objetivo. É natural querer ganhar tudo. Mas não é razoável acreditar que isso vá acontecer – mais ainda em um esporte como o futebol, onde o imponderável é uma variável permanente.
É muito raro um time ganhar o Brasileiro e a Libertadores no mesmo ano. Considerando apenas os “Brasileiros de verdade”, ou seja, o campeonato que começou a ser disputado a partir de 1971, isso só aconteceu 3 vezes, 2 delas com o Flamengo (a outra foi com o Botafogo – e se quiserem incluir na conta os campeonatos conquistados por “fax”, o Santos ganhou outras 2 vezes nos anos 60).
Ok, considerando que as conquistas de Flamengo e Botafogo são dessa década, talvez daqui para frente esse cenário possa ser mais comum. Mas até aqui sua raridade dá a medida dessa dificuldade.
Sejamos práticos: se há um objetivo real para o Flamengo em 2026 é justamente igualar esse feito extraordinário, sendo bicampeão da Libertadores e do Brasileiro. E, se for possível, ir mais além, conquistando o bicampeonato mundial, que escapou nos pênaltis.
E ainda nem falei do Carioca....sim, porque em NOVEMBRO a CBF resolveu mudar o calendário e tornar simultâneas as disputas dos Estaduais e Brasileirão. Assim, se antes os Estaduais só esquentavam a partir de março, agora antes do Carnaval já tinha fase decisiva na mesa.
Não há a menor dúvida de que o Flamengo passa por um declínio técnico nesse início de temporada. Tenho meus palpites, mas além de serem vários, são apenas isso: palpites! Você certamente também tem os seus e não temos como saber quais deles estão mais próximos da realidade.
Sejamos práticos, enfim. É hora de aprender com as derrotas, corrigir os erros e aprumar o time para os desafios que virão. O Flamengo não precisa estar bem agora – precisa estar bem para chegar no topo da montanha e, especialmente, quando os seus adversários também estiverem bem. Afinal, se vocês prestarem atenção direitinho, notarão que nesse fevereiro ainda não há nenhum time particularmente se destacando.
O que o pior pode fazer o Flamengo é se desviar do seu objetivo e dar às derrotas e más atuações recentes um peso que elas não têm, o que pode acabar provocando um ambiente irrespirável, que levará a decisões precipitadas e irrefletidas. E, por favor: ninguém gosta de perder, mas isso vai acontecer muitas outras vezes. Foco na missão, tem tudo para 2026 ser outro grande ano na nossa história.
Walter Monteiro é advogado e sócio do Flamengo. Foi candidato a presidente do clube em 2021.














