Comissão alega discriminação a homens brancos para barrar cotas em Conselho do Flamengo

A pauta aparentemente anódina da criação de uma Comissão de Marketing permanente para analisar contratos a serem votados pelo Conselho Deliberativo do Flamengo acabou se tornando o tema mais polêmico da reunião que aprovou a redução em 10% do preço dos imóveis do clube no Morro da Viúva com apenas sete votos contrários, na noite de segunda-feira (17).
A conselheira Marion Kaplan propôs um acréscimo à emenda para que todas as comissões do Conselho Deliberativo passassem a ter cotas de 10% para mulheres e negros. A Comissão de Estatuto, responsável por consolidar o texto das propostas de emenda antes da ida à plenário, rejeitou a proposta sob a alegação de que ela contraria o artigo 3º do estatuto do clube.
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“É vedada a discriminação por motivo de origem, raça, sexo, cor, idade, crença religiosa, convicção filosófica ou política e condição social”, diz o artigo.
Ou seja, na prática a Comissão de Estatuto insinuou que a adoção da proposta de Marion seria discriminatória contra homens brancos do Conselho, o que revoltou a conselheira.
“A luta em prol das mulheres na sociedade já é muito difícil. Mas dentro do ambiente do futebol é quase impossível. Já se passaram quase seis anos que batalho por mais representatividade e mais de 2 anos q a Bancada Feminina pede mais mulheres nos conselhos e nas comissões. E não somos ouvidas. E nos deparamos nos corredores da Gávea ainda com discursos muito arcaicos. Desanima muito. A gente não vê evolução”, disse ela ao Mundo Bola.
Comissão também barrou cota para opositores
Além da emenda de Marion, a Comissão de Estatuto também rejeitou uma emenda do conselheiro Rodrigo Rôtzsch que propunha que as comissões passassem a ter 20% de sua composição formada por conselheiros eleitos pela segunda chapa mais votada nas eleições ou conselheiros natos que fizessem parte da mesma chapa no Conselho de Administração. A Comissão de Estatuto argumentou que o presidente do Conselho Deliberativo já é livre para escolher esses conselheiros para as comissões.
Além da Comissão de Marketing, que apesar das discussões foi aprovada por 88 votos a 16, o Conselho Deliberativo tem mais cinco comissões permanentes, de Finanças, Assuntos Jurídicos, Obras, Benemerência e Estatuto, a que vetou a inclusão das regras propostas pelos conselheiros.
Os membros das comissões têm acesso a documentos e informações que não chegam aos demais conselheiros. Além disso, a participação em comissões é fator que conta como serviços prestados ao Flamengo e é considerado na distribuição dos títulos honoríficos de emérito, benemérito e grande-benemérito.
Outra conselheira relatou problemas no processo de criação da Comissão de Marketing. Juliane Musacchio, que foi candidata a vice-presidente na chapa de Marco Aurélio Assef nas últimas eleições, reclamou de ter sido convidada para integrar a comissão e depois ter esse convite retirado. Ela disse que isso pode ter acontecido por ter posição contrária à do presidente do Conselho Deliberativo, Antônio Alcides, no Conselho de Administração.
Alcides se defendeu dizendo que considerou que a comissão já estava muito “inchada” e por isso desistiu da indicação de Juliane.
Polêmica adia votação de emenda apoiada por Landim
A polêmica em torno da emenda acabou levando à retirada de pauta de outra emenda que a princípio causaria mais controvérsia. Apoiada pelo presidente Rodolfo Landim, a proposta determina que um mesmo tema de emenda só pode ser discutido pelo Conselho uma vez a cada triênio. Os autores da emenda pediram que ela fosse retirada de pauta e incluída na próxima reunião do Conselho, em 1º de julho.
Ironicamente, se a emenda já estivesse valendo, ela só poderia ser votada no ano que vem, já que a proibição de que um assunto seja discutido duas vezes no mesmo triênio inclui propostas que são retiradas de pauta antes da votação.