'Aquele Maracanã acabou': torcedores históricos lamentam exclusão no estádio

04/04/2025, 13:59
Atualizado: 04/04/2025
Torcedores geraldinos no Palácio Guanabara

A alta no preço dos ingressos para os jogos do Flamengo se tornam pauta frequente e importante. Antigos Geraldinos, ou seja, torcedores que frequentavam a Geral do Maracanã, e hoje, são torcedores históricos do clube, se reuniram com o vice-governador do Rio de Janeiro para levar a reclamação.

➕Preço de ingressos do Flamengo em 2025: um debate recorrente e necessário

"Hoje o Maracanã é elitizado. Conheço gente que chora porque não tem condições de ir”, diz Merica, em uma de suas ricas declarações ao MundoBola Flamengo. A luta contra a elitização, visando o retorno do torcedor de baixa renda aos jogos do Mengão, só está começando, e Samuca da Geral lembra: “O cara tem três filhos, não pode ir ao Maracanã porque o ingresso está R$ 150.”

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A reportagem conversou com Flávio Carlos, conhecido como Merica, além de Fábio, o Homem de Ferro Rubro-Negro, que vai aos jogos com a fantasia do personagem, e o torcedor símbolo conhecido como Samuca. Os torcedores ilustres encabeçam o movimento contra a elitização e trazem peso sentimental e humano aos seus relatos.

'Aquele Maracanã acabou', lamenta Merica

Merica traz forte relato, primeiro, citando torcedores afastados do estádio por conta dos altos preços dos ingressos.

"Essa elitização que está havendo, hoje os torcedores, ícones do Clube de Regatas do Flamengo, muitos deles têm grande representatividade, e não podem mais ir ao estádio do Maracanã com o ingresso a R$ 120. Os eternos geraldinos estão afastados", lamenta.

Para o torcedor, o Maracanã é do povão. Mas o atual Maracanã é da elite, e há torcedores que se emocionam por não conseguir fomentar sua paixão indo aos jogos.

"Aquele Maracanã acabou. Era do povão. Hoje em dia, o Maracanã é elitizado. Conheço muita gente que chora porque não tem condições de ir ao Maracanã. O governo é dono do estádio, por isso, levamos a questão a eles", comenta.

Na reunião, Merica conta quais foram as demandas levadas pelos torcedores.

"Fomos ao Gabinete do Governador. Como rubro-negro, ele achou um absurdo. Não só o preço dos ingressos, mas também falei com ele que, na hora de querer fazer um lanche, R$ 7 um copo d'água de 200 ml. Um cachorro-quente, um pão com salsicha, R$ 14. Quando você vai ao Maracanã, não vai sozinho. Se você tem dois filhos, três filhos... Vai com a esposa. Não gasta menos que R$ 500. O verdadeiro torcedor, o povão, foi abdicado do Maracanã", diz.

As gratuidades saíram do Setor Norte, e como frequentador assíduo, Merica relata dificuldades para cadeirantes, deficientes e idosos de chegar ao Setor Leste Superior, onde os rubro-negros que vão gratuitamente estão sendo alocados.

"Levamos também a questão da gratuidade. Os idosos, deficientes, sempre foram para o Setor Norte. Ali é o setor que sempre foi deles. O Bap, infelizmente, colocou o pessoal lá em cima, no Setor Leste Superior. É difícil a acessibilidade para quem é deficiente, para quem é cego. Para pessoas idosas. Lá em cima, é difícil a acessibilidade. É muita reclamação. Cadeirante, então... Chega a ser covardia. Ele disse que vai fazer de tudo para que nós retornemos ao Setor Norte, que sempre foi o setor da gratuidade", avisa.

A esperança é que o governo se movimente em conversas com o Flamengo.

"Vai tomar providências, principalmente com o pessoal da gratuidade. Tinha muita gente de idade lá. Eu, como representante da torcida que estava ali, dos geraldinos e da FlaMureta, levei ao conhecimento dele. Ele falou que vai fazer de tudo para o pessoal da gratuidade retornar ao Setor Norte", afirma.

Merica explica que o Setor Norte tinha acesso facilitado, e que os torcedores históricos do clube se sentem excluídos.

"Norte é um setor de fácil acesso. De seis meses para cá, o Bap mudou. Até os torcedores adversários falam: 'Caramba, o que ele está fazendo com vocês? Colocando lá no Leste Superior'. Difícil acesso para o idoso que ama o futebol, e o Flamengo. Pior é para cadeirante. Lá em cima, tem gente que não consegue enxergar, nem de óculos. É uma coisa que está mexendo muito com a gente. Nos sentimos excluídos. Não sei porque o Bap está fazendo isso. Não entendemos nada. Gosto muito dele, não nos envolvemos com política, nossa política é o Flamengo. Estamos com o Flamengo, nosso amor, independente de política", relata.

O torcedor lembra as raízes do Flamengo e critica os preços dos ingressos.

"Muita dificuldade, não tem condições de dar R$ 150 em um ingresso. Tem muito jovem de colégio público, que o pai ganha R$ 1500. Conheço muita gente que fica chorando para ir aos jogos. O pai, que tinha antigamente acesso. Era R$ 10, antigamente, na geral histórica, o setor do povão. O Flamengo é da favela, da Baixada, de São Gonçalo. Somos o único clube do Brasil a ter orgulho de ser chamado de favelado. Nossa reivindicação é essa", afirma.

Definitivamente, Merica não é um torcedor qualquer. Sua história é antiga, e seu pai chegou a fazer parte da primeira torcida organizada do Brasil. Ele resume sua história como torcedor e relembra momentos icônicos no Maracanã.

"Amor de pai para filho. Meu pai foi da primeira organizada do Brasil. Meu pai é da Charanga, da década de 40. Já fui, na barriga da minha mãe, em 70, ao Maracanã. Acabou a Charanga, meu pai continuou indo, e eu desde criancinha. Estava lá no gol do Rondinelli, em 77, aos 42 minutos. Ali que começou tudo. Com o Zico iniciando, até 83. O maior público que o Maracanã teve até hoje foi aquele Flamengo x Santos, com o último jogo do Zico antes de ir a Udinese. Tenho muitas histórias no Maracanã. O Maracanã é a minha vida, assim como o Flamengo. Sou pai, avô, meus filhos também foram criados no Maracanã. Só trouxe benefícios para mim. Não só o Flamengo, mas os jogadores, Zico, Adílio, que era muito meu amigo", afirma.

A paixão é tão grande que o aproximou de ídolos históricos, como Adílio, histórico camisa 8, e amigo pessoal de Merica.

"Adílio é meu parceiro desde criança, me pegou no colo. Muita resenha que tive com ele na Gávea. Sensacional", lembra.

Samuca da Geral critica: 'Estão afastando o povo do Flamengo'

O torcedor ilustre conhecido como Samuca também falou com a reportagem. Morador da Pavuna, Samuca viu o surgimento de inúmeros nomes, e conheceu até Zico.

"Tenho história até do Zico. Esteve aqui na Pavuna em 74, não era nem casado com a Sandra. Estive com ele no CT dele, me falou: 'Pô, tu tá me lembrando coisas que eu até esqueci, cara'. Falou que sou um dos melhores colegas dele. Me botou no Instagram dele. Daqui (da Pavuna) saiu Manguito, Pita, João Paulo, Nei Conceição, Maurício, Jorge Nei, Paulo César. Saiu tudo aqui de perto de casa, do Pavunense", comenta.

Foi Jorge Nei, inclusive, quem o levou ao estádio pela primeira vez. Presença frequente no Maracanã desde os anos 70, Samuca tem uma grande coleção de camisas e até ingressos antigos.

"Eu comecei em 74. O Jorge Nei me levou ao Maracanã em 74. A família dele toda mora aqui ainda. Aí comecei. Viajei muito atrás do Flamengo. Eu sou dessa época. Comecei em 74 no Maracanã, tenho o ingresso de papel timbrado na minha casa ainda. Eu tenho 350 camisas em casa", afirma.

Apesar da alma rubro-negra, hoje, Samuca relata que não pode mais frequentar a sede do clube, na Gávea.

"Eu não posso entrar lá dentro. Eu tinha minha carteira, porque está no estatuto do torcedor. Torcedor antigo, que nunca arrumou confusão. O cara conseguiu fazer isso comigo", lamenta.

Os preços impedem que os flamenguistas mais humildes vão aos jogos. Principalmente os pais de família, que teriam que gastar um valor alto para levar seus filhos.

"Aumentou o ingresso, R$ 150. O cara tem três filhos, não pode ir ao Maracanã porque o ingresso está muito caro. O Maracanã é do povão", exclama.

Samuca também lamenta não poder ir ao estádio com a mesma frequência.

"É, ele acabar com a gratuidade. Não tem como. A gente faz a alegria do Flamengo. Colocaram lá em cima, cadeirante. A gente fica triste, não pode ir ao Maracanã por causa disso", conta. 

Ele compara com as gratuidades nos jogos do Botafogo, que cede o dobro de ingressos.

"Ele cortou a Norte. Divide, a Norte e a Sul. O Botafogo tem 4 mil gratuidades. Eles estão colocando só 2 mil no Maracanã", diz.

Sobre a reunião no Palácio Guanabara, Samuca avisa que tem o apoio do governo.

"O governador está com a gente. Ele tem muito contato na Gávea. Vai conversar para ver essa situação da gente", informa.

O torcedor participou da reunião com um cartaz em protesto ao contexto atual dos jogos do Flamengo.

"Levei até a placa, o Maracanã é dos pobres. E gratuidade, por lei, também (...) Eu fico triste com o povão, não penso em mim, não. Estão afastando o povo do Flamengo", conclui.

'Sem o torcedor, o Flamengo não é nada', diz Fábio, o Homem de Ferro Rubro-Negro

Flamenguista conhecido por ir ao Maracanã vestido de Homem de Ferro, fazendo a alegria das crianças e também do resto dos torcedores, Fábio diz que apenas os torcedores com melhores condições frequentam os jogos do Flamengo.

"Com essa nova diretoria, o Bap está modificando a maneira, copiou o modelo de uma gestão de fora e está implementando aqui. Encareceu bastante para pessoas de baixa renda, o povão. A torcida do Flamengo é popular. É a classe mais humilde, vende o que tem para ver um jogo do Flamengo. É a nossa vida. O valor do ingresso, esse ano, está muito alto. Está afastando o povão. Quem tem condições, compra", inicia.

O ilustre torcedor entende a justificativa de que o clube tenta manter um time competitivo, mas dá ideias para gerar lucro sem precisar subir os preços dos ingressos.

"Entendo que para ter um super time, gasta. Mas o Flamengo tem mais de 50 milhões de torcedores. Se o Bap fizer uma jogada de marketing para que o torcedor participe... Como fizeram o tijolinho, no CT do Flamengo. Não encarecer o ingresso. Já paga o ingresso caro, e lá dentro, o consumo de cerveja, refrigerante, pipoca, é caro também. Tudo bem, tem que manter um grande time e leva um custo. Mas o Flamengo pode juntar dinheiro com jogada de marketing. O torcedor faz tudo pelo Flamengo. Tem torcedor que larga a família pelo Flamengo. Se o Bap usar essa paixão que nós torcedores temos, ganharia muito em cima disso. Sem encarecer ingressos. Quando o Adriano veio, em seis meses, vendeu um milhão de camisas", lembra.

Outra ideia dada pelo torcedor é fazer um plano de Sócio mais acessível.

"Eles não fizeram aquele Sócio-Torcedor, prata, bronze? Faz um plano para o público de baixa renda. Flamengo vai ganhar duas vezes", dá a ideia, recordando loucuras que já viu torcedores fazendo pelo clube.

"Nós não somos inimigos do Bap. Sei que ele quer ver o bem do Flamengo, quer o clube na elite do primeiro mundo. Mas é para olhar, também, para os torcedores de baixa renda. Somos apaixonados, fazemos tudo pelo Flamengo. Teve torcedor aí, que para ir ao Mundial, usou o cartão de crédito da sogra, deixou de pagar aluguel, mesmo sem condições, faz de tudo", lembra.

Sem o Setor Norte liberado para gratuidades, os torcedores perdem o sentido de pertencimento, já que era um local que eles estavam acostumados a ficar na mureta exibindo suas bandeiras.

"Não estou indo muito. Entrou o Bap, ele dá gratuidade, só que antes, essas gratuidades eram metade Sul, metade Norte, quando o mando é do Flamengo. Ele tirou a Norte da gente, colocou para Leste, em clássico regional. Quando não é clássico, é Sul. Aquele povão que ficava na Mureta, os antigos, os que se vestem como eu. São torcedores das antigas. Não tem condições de ficar mais no Norte. A diretoria quer o bem do Flamengo, mas está tirando o que é o brilho. O torcedor brilha, inventa. Sem o torcedor, o Flamengo não era conhecido lá fora", diz.

Além disso, os ingressos acabam se pagando pelo consumo dentro do estádio, que também conta com custo elevado.

"Mesmo sendo gratuidade, a gente consome. Leva filho, compra cachorro-quente, açaí, cerveja. A gente dá lucro para o Flamengo. Minha esposa vai comigo, se veste de Capitã Marvel também. Ela toma refrigerante. Ela acaba pagando pelo ingresso que ganhou na gratuidade. A batata é R$ 20. Um refrigerante, R$ 12. O Bap pode perder no ingresso, mas ganha no consumo", opina.

Os torcedores contam com o governo para chegar aos mandatários do clube.

"A gente, quando chega num certo ponto, que vemos que a diretoria não está olhando para o torcedor, procuramos as pessoas que podem chegar até eles e conversar. Gente grande como eles. Fomos lá para mostrar. O futebol perde a graça quando o direito do torcedor acaba. Quem faz a alegria dos estádios é o torcedor", afirma, antes de continuar:

"As pessoas que atenderam a gente, são flamenguistas. O vice-governador é flamenguista. Pelas ideias que houve na conversa, deu esperança para a gente. Não queremos só Norte, queremos uma quantidade para nós, torcedores da gratuidade, termos o acesso como antigamente. Não dava nenhum prejuízo. Na Mureta, a gente inventava, fazia troféu, cartaz. O mundo todo assiste. A diretoria está distanciando os torcedores do Setor Norte. Então procuramos, Carlos Nascimento, que foi intermediário, uma pessoa que entende nossa situação. Mais uma coisa grave, o Setor Leste é superior. Deficientes, idosos, terem que subir aquela rampa, é uma coisa horrível".

A tendência é que uma nova reunião aconteça para acompanhar a demanda levada pelos torcedores.

"Pegaram nosso pedido. Que seja pensado, que haja mobilização. Atendam nosso pedido. Falaram que deve haver mais uma reunião, que vão levar o setor de marketing que eles têm, a secretaria de esporte e turismo, que vão acompanhar nosso pedido. Abraçar a nossa causa", comenta.

No seu ciclo de amizades, o Homem de Ferro relata casos de amigos que não vão mais ao estádio pela precificação atual.

"Tem, nossa amiga Carol, que fica na mureta. Compra ingresso, público-geral. Tem hora que não dá para ir. Outro rapaz que sai lá de Itaguaí, quando dá para comprar, ele vai. Esses dias ele ligou para mim, perguntei se ele ia ao Maracanã, ele disse que estava muito caro o ingresso e não tinha condições de ir", comenta.

Fábio também conta sua história como torcedor até se tornar o Homem de Ferro Rubro-Negro, precisando driblar o pai vascaíno na infância.

"Meu pai comprou roupa de Vasco, colocou em mim. Eu tinha um tio, filho dele era flamenguista apaixonado. Ele me converteu. Estava perdido, eu não tinha luz, e ele me mostrou a luz. Em 1977, era apaixonado. Com os anos, fui me apaixonando mais. Meu pai me levava em jogos do Vasco, mas nunca Vasco x Flamengo. Em 1988, ia me levar. No dia, me disse que não conseguiríamos ir. Caiu uma lágrima. Depois, ele conseguiu um emprego e me levou", se lembra.

Na sua bandeira, falta a assinatura do ídolo máximo da Nação.

"Meu sonho é conhecer o Zico. Minha bandeira tem assinatura do falecido Adílio. Mozer, Sávio, Rondinelli, Andrade, etc. Essa bandeira do Homem de Ferro é um ícone. Falta o Zico. Mas sei que um dia vou ter essa oportunidade", sonha.

Antes de ser Homem de Ferro, Fábio foi Capitão América no Carnaval de 2018, conseguindo vender muitos picolés pela fantasia. No ano seguinte, ele repetiu a dose com o Homem de Ferro e foi ao jogo do Flamengo após o trabalho na praia. Assim nasceu o Homem de Ferro Rubro-Negro.

"Em 2018, saí de Capitão América no Carnaval, vendendo picolé na praia vermelha. Foi maior sucesso. Vendi muito. Em 2019, vi o auge da carreira do Homem de Ferro, e fui vender picolé de Homem de Ferro. Tinha um jogo de sábado de carnaval. Fui nesse jogo. O fotógrafo viu minha roupa: 'Que fantasia maneira, o Homem de Ferro Rubro-Negro'. A torcida abraçou o Homem de Ferro. Fora outras fantasias que faço, fantasma do Sem Mundial do Fluminense, do Vice do Vasco, da Série B do Vasco. Meu amor pelo Flamengo é esse", relata.

O flamenguista fanático chega a se emocionar ao relembrar seus momentos de Maracanã, Flamengo e de Homem de Ferro. Ele encerra deixando o aviso: quer levar a fantasia para a eternidade.

"Já falei para minha esposa, se um dia chegar minha hora, que eu seja enterrado com a roupa do Homem de Ferro Rubro-Negro", finaliza.

O futebol se moderniza a cada ano, e a condução dos clubes segue esse padrão. Mas os torcedores esperam que o clube não perca sua alma popular, cada dia mais distante. Afinal, o Flamengo é o time do asfalto, do morro, de Deus, do povo e dos nossos corações, como diria o narrador Luiz Penido.