A venda de Dourado é um final feliz para uma típica história do Flamengo errante
Um panorama completo da trajetória do atacante, da chegada ao Flamengo até a transferência para o futebol chinês: um erro que deixou afeto
A transferência de Henrique Dourado para o chinês Henan Jianye, foi bem vista pela torcida do Flamengo. A chegada, assim como a curta trajetória de pouco mais de um ano do jogador, sempre foram bastante criticadas pela torcida.
No entanto, o jogador sempre foi elogiado pela dedicação dentro de campo e respeito ao clube, torcida e companheiros de time. De certa forma, a postura de Henrique Dourado abrandou um pouco a impaciência da torcida rubro-negra, que vive longo jejum de grandes títulos nos últimos tempos e não se poupa de perseguir os jogadores que chegaram com muita expectativa, custaram altos cifras e não se tornaram decisivos.
Ainda que sem confirmação oficial, os valores do negócio propiciarão ao Rubro-Negro um pequeno, porém muito bem-vindo lucro. O site GloboEsporte.com apurou que o Flamengo receberá entre R$ 18 milhões e R$ 20 milhões por 75% dos direitos econômicos do atleta.
Números de Henrique Dourado até sua chegada no Flamengo
Henrique Dourado tem 29 anos (19/09/1989), é canhoto e tem 1,84 cm de altura. Apareceu para o grande público do futebol profissional brasileiro em 2013, quando o Mirassol o emprestou para o Santos. Por muito pouco não tornou-se mais um andarilho sem muito sucesso do futebol brasileiro.
Fez sua base no Flamengo-SP, e depois passou por clubes pequenos de São Paulo (Lemense, União São João, Mogi Mirim e Santo André), Cianorte, Chapecoense. Com longo contrato assinado com o Mirassol – clube que nunca defendeu dentro de campo, de fato -, sua primeira oportunidade foi o Santos Futebol Clube.
Sem muito sucesso na Vila Belmiro, seu próximo destino, ainda no ano de 2013, foi a Portuguesa, onde disputou 10 partidas do Brasileiro daquele ano, marcando apenas um gol. Nos anos seguintes, teve oportunidades em outros dois grandes clubes do país, Palmeiras e Cruzeiro, sem grande destaque neste último. No alviverde, porém, mesmo sem nenhuma simpatia da torcida, que o elegeu como um dos símbolos de mediocridade da temporada 2014, que por muito pouco não deu em rebaixamento no Brasileiro, seus 16 gols em 33 jogos ajudaram substancialmente seu time.
Rumou para o Vitória de Guimarães, de Portugal, onde teve boa sequência na temporada 2016/2017. Os 12 gols em 30 jogos nos Vitorianos, chamaram a atenção do Fluminense, onde desembarcou em julho de 2017. E foi no tricolor carioca que o centroavante ganhou real notoriedade no futebol e se tornou um jogador de primeiro nível.
Titular absoluto, com 24 gols em 49 jogos, consolidou a alcunha de Ceifador e começou a ganhar fama de batedor de pênalti infalível. Em 2017, seu grande ano, treinado por Abel Braga, tornou-se artilheiro do Brasileiro ao lado do corintiano Jô, com 18 gols.

Chegada ao Flamengo – Contexto, perspectivas e resultados
No início de 2018, o Rubro-Negro tentava olhar para frente após ficar sem seu o peruano Paolo Guerrero, jogador que representava a volta por cima econômica do clube após o resgate de boas práticas com base em medidas austeras de recuperação financeira a partir de 2012.
Após disputar a Copa do Mundo pelo seu país, Guerrero voltou a ficar impossibilitado de jogar futebol por conta do doping. Felipe Vizeu foi bem na Copa Sul-Americana, com gol decisivos nas quartas contra o Fluminense e nos semifinais contra o Junior Barranquila. Entretanto, não parecia que 2018 seria um ano de protagonismo do jovem criado no Ninho do Urubu: vendido à Udinese-ITA, Vizeu só ficaria até metade do ano. Sem Guerrero e Vizeu, não havia outra alternativa a não ser contratar um atacante de nome.

Para o diretor de futebol Rodrigo Caetano, o CEO Fred Luz e o presidente Eduardo Bandeira de Mello, Henrique Dourado era uma grande solução. Caetano via no atacante uma solução técnica, Luz viabilidade econômica e Bandeira crédito com a torcida, por julgar que tirar o artilheiro do Fluminense uma medida popular, ação que costuma acirrar as torcidas envolvidas e capital político em ano de eleição.
Os três, e cada qual com seus motivos, fecharam intenção inequívoca de trazer Ceifador. O VP Ricardo Lomba não se opunha, apesar de trazer da arquibancada um pouco do sentimento de boa parte da torcida: que Dourado não seria unanimidade entre os torcedores.
Por mais que na história grandes “trombadores” tenham feito muito sucesso vestindo o Manto – Hernane, o mais recente, teve papel decisivo na Copa do Brasil 2013, última grande conquista do CRF -, o momento de poder de fogo no mercado gerou a expectativa de contratações de jogadores diferenciados. Dourado nunca foi e nem será um artilheiro de grandes aptidões técnicas.
O primeiro gol
Era um sábado, 10 de fevereiro. O jogo foi contra o Botafogo no Estádio da Cidadania, válido pelo Campeonato Carioca 2018. O Flamengo venceu seu rival por 3×1 com o segundo gol anotado pelo estreante Henrique Dourado. A primeira ceifada ajudou o Mengo a se classificar para a final da Taça Guanabara diante do Boavista, que acabou vencendo.
Dourado dedicou o gol ao seu filho Vinicius, que tinha seis anos.
A boa atuação do time comandado por Carpegiani animou a torcida. O primeiro gol foi de Everton Cardoso na primeira etapa. No começo do segundo tempo, o debute foi coroado com arremate após Lucas Paquetá escorar da esquerda da área botafoguense.
Emoção de portões fechados contra o River Plate na Libertadores
Diante das arquibancadas silenciosas do Estádio Nilton Santos, Henrique Dourado ceifou de pênalti e foi o primeiro jogador da equipe a marcar na 14ª Libertadores da América rubro-negra. O jogo terminou empatado mas a torcida não vai esquecer da arbitragem ruim que ajudou os argentinos ao longo dos 90 minutos. Aos 39 minutos do primeiro tempo, Zuculini cometeu penalidade máxima clara em Paquetá. O pior foi saber meses depois que o infrator jogou em situação irregular e nem era para estar em campo. Ironicamente, o River Plate passou em primeiro no grupo e sagrou-se campeão da competição.
Veja outros gols importantes de Henrique Dourado
Nada é mais importante para um camisa 9 do que marcar gols. No entanto, o mais importante para uma equipe é que os gols do seu matador sejam importantes para as vitórias e para a trajetória positiva do time na temporada.
Flamengo 2×0 América-MG – Brasileiro 2018
Na despedida do futebol de Júlio César o jogo não foi nada fácil mas Henrique marcou duas vezes e garantiu a festa do histórico goleiro formado no Flamengo, titular da Seleção Brasileira em duas Copas do Mundo e eleito melhor goleiro da temporada europeia 2009/2010, quando atuava pela Inter de Milão. Após cruzamento de Vinicius Junior, Dourado estava lá para escorar.
Em grande noite, Dourado ceifou ao melhor estilo Ceifador. Após boa jogada sua pela esquerda, o juiz da partida marca penalidade máxima. Caixa!
Ponte Preta 0x1 Flamengo – Brasileiro 2018
Após bela trama na direita de ataque, Everton Ribeiro mete para Lucas Paquetá que em vê Dourado na pequena área e passa rasteiro e com muito açúcar para o artilheiro fazer o gol da vitória.
Fluminense 0x2 Flamengo – Brasileiro 2018
A Lei do Ex em sua maior essência. Dourado sacramenta a vitória do clube que o consagrou em pleno Estádio Mané Garrincha, em Brasília.
Flamengo 1×0 Cruzeiro – Brasileiro 2018
Um gol importantíssimo, após a derrota em casa no primeiro jogo das oitavas da Libertadores para o próprio Cruzeiro, o gol trouxe um certo alento para o moral da equipe. Muito oportunismo no biquinho de canhota e emoção nas arquibancadas.
Berrío voltava de contusão e incendiou o jogo na parte final da segunda etapa. Dourado, que também veio do banco, concluiu com muita firmeza e confiança o centro feito com esforço e garra pelo companheiro colombiano. Lindo gol, belíssima vitória em uma tarde de pouco futebol no Maracanã.
O último gol
Com muita calma. Foi assim que Dourado ceifou pela última vez com o Manto Sagrado. O tento foi 14º da sua curta passagem pelo Flamengo.
Configuração do ataque rubro-negro agora sem Dourado e algumas conclusões
Gabriel Barbosa não está tão próximo de ser um camisa 9 de referência fixa na área mas com certeza é, hoje, a escolha de Abel Braga para ser o comandante de ataque.
Uribe chegou na janela de julho do ano passado meio que para tentar corrigir o “erro” com a escolha de Henrique Dourado para ser o principal fazedor de gols. Porém, assim como o seu concorrente, também tem enorme dificuldade na construção de jogo. O colombiano já mostrou alguns diferenciais importantes como ser mais atento e concentrado, recompor com mais rapidez e deslocamento inteligente no jogo aéreo.
Os jovens Lincoln e Vitor Gabriel ganham mais espaço. Principalmente o último, pois Lincoln voltou contundido e sequer foi inscrito na Libertadores. Vitor Gabriel ganhou espaço com Abel Braga, que o convocou para a Florida Cup e poderá jogar a competição organizada pela Conmebol pela primeira vez este ano. Espera-se que seja utilizado pelo técnico como atacante de área e não como ponta.
Adeus ao quinto maior batedor de pênalti do mundo e às ceifadas nas comemorações
Apesar das qualidades como batedor de pênalti, o oportunismo de Henrique Dourado parece ser mais necessário a um tipo de jogo que a torcida do Flamengo acredita não ser ideal para o poder de fogo financeiro que o time pode empreender.
Dourado nunca foi bem visto tecnicamente pela Nação. E pouco durou como atacante titular no Flamengo. Até o fato de ser uma espécie de pupilo de Abel Braga não proporcionou um prestígio maior.
Depois de ser comprado por quase R$ 16 milhões de reais, virar terceira opção e ter em seu retrovisor os talentos de Lincoln e Vitor Gabriel pedindo passagem, Dourado e Flamengo não titubearam em aceitarem a proposta do Henan Jianye. No futebol chinês, as ceifadas com certeza se tornaram mais constantes. O Flamengo respira aliviado por reaver ainda com lucro o investimento no jogador, a Nação Rubro-Negra se despede com um sentimento terno a um jogador mediano que conseguiu afastar todo sentimento ruim. Será lembrado como um cara legal, que honrou o Manto Sagrado do maior clube do país com dignidade, companheirismo e muito amor. Henrique Dourado já venceu e merece todo o sucesso do futebol às vésperas de completar 30 anos.
Depois de ser comprado por quase R$ 16 milhões de reais, virar terceira opção e ter em seu retrovisor os talentos de Lincoln e Vitor Gabriel pedindo passagem, Dourado e Flamengo não titubearam em aceitarem a proposta do Henan Jianye. No futebol chinês, as ceifadas com certeza se tornaram mais constantes. O Flamengo respira aliviado por reaver ainda com lucro o investimento no jogador, a Nação Rubro-Negra se despede com um sentimento terno a um jogador mediano que conseguiu afastar todo sentimento ruim. Será lembrado como um cara legal, que honrou o Manto Sagrado do maior clube do país com dignidade, companheirismo e muito amor. Henrique Dourado já venceu e merece todo o sucesso do futebol às vésperas de completar 30 anos.
A venda de Henrique Dourado para a China é um final feliz para uma típica história do Flamengo errante
Quando se troca um jogador reconhecido pelo bom passe e ótimo pivô por um trombador desengonçado e finalizador o que se espera? Uma configuração de time completamente diferente.
Mas é claro que não foi o que aconteceu. Sai Guerrero, entra Dourado e o time do Flamengo em 2018 reforçou a ideia de jogo de posse de bola, rotação, movimentação no setor intermediário de criação, aversão ao contra-ataque, ao jogo físico, ao chutão e quebra.
A escolha de Dourado foi errada como quase todas devem ser de um comitê errático, como o fora o formado por Eduardo Bandeira, Ricardo Lomba, Fred Luz e Rodrigo Caetano.
Cada qual desses errando um tanto importante. O presidente queria brincar de tirar o jogador do rival, como se estivesse vivendo nos tempos áureas do futebol carioca.
O VP de Futebol ainda naquela altura dos acontecimentos sem voz, aleatório e submisso.
O CEO sem-noção não tinha saberia explicar o porquê de pagar o valor que pagou em um jogador que que claramente viveu o seu imenso ano, assim como Josiel viveu em 2007, e Dimba em 2003.
E por fim a escolha errada de quem não poderia errar tanto mas bateu marcas. Como Rodrigo Caetano, ex-jogador de futebol e veterano manager, acreditou que Dourado seria imprescindível para o Flamengo de 2018 não é uma pergunta difícil de responder quando tivemos a vinda de Geuvânio seis meses antes chancelada pelo mesmo.
A gente deve uma para o futebol chinês, para o Henan Jianye, para todos os benditos agentes envolvidos no intermédio do negócio, para os dirigentes amadores e profissionais do Flamengo que de forma iluminada aceitaram vendê-lo, a Abel Braga, ao próprio jogador e, claro, a São Judas Tadeu. Afinal, corríamos o risco de perder muito dinheiro até o fim de 2021 mas no final do dia acabamos embolsando uns trocados.
Típica história rubro-negra. Cheia de erros, sentimentos bons e ruins misturados e final feliz inesperado.