A síndrome do Arrascaeta fantasma

Não foi a primeira vez que aconteceu e provavelmente não vai ser a última vez que vai acontecer. Temos um Flamengo veloz e dominante mas que não gera chances, uma equipe repleta de pontas mas sem originalidade no meio, um time que, diante de uma defesa mais fechada, de um sistema tático mais retrancado, não consegue gerar oportunidades.
Aí, diante dessa total ausência de criatividade, alguém vai reparar em algo inusitado e que talvez, apenas talvez, possa ter alguma relação com a dificuldade da equipe para criar jogadas: o fato de que não temos em campo nenhum jogador de criação.
E vivemos isso, mais uma vez, na partida dessa quinta-feira, na sofrida vitória de 1x0 diante do Deportivo Táchira, da Venezuela.
Não sofrida em termos de riscos, já que o Flamengo foi sim dominante na partida e, salvo duas falhas defensivas bisonhas na reta final da partida, praticamente não foi ameaçado pelo atual campeão venezuelano.
Mas sofrido porque, bem, foi um sofrimento assistir ao time de Filipe Luís nesta primeira rodada da fase de grupos da Libertadores.
Sem Arrascaeta e Gérson, lesionados, e apostando em Luiz Araújo deslocado para o meio, o que se via era um time com quatro pontas, sem atacante de referência, onde o ataque dependia de jogadores que, apesar de velozes e extremamente capazes no um contra um, não tem a capacidade de articular jogadas e quebrar linhas.
Pra quem sobrava a função de tentar verticalizar jogadas? Pulgar e Léo Ortiz, que apesar de muito qualificados, se viam sem ter com quem dialogar, realizando um penúltimo passe que provavelmente encontraria um atacante velocista com a tarefa ingrata de passar por dois ou três marcadores.
Uma situação familiar? Claro que sim, já que não apenas Arrascaeta como também Gérson são atletas com frequentes ausências no elenco rubro-negro, seja por lesão ou convocação, e para os quais parece não haver ou substituto no elenco, no mercado ou até mesmo no planeta. Lorran seria solução e foi “rebaixado” ao sub-20, Alcaraz poderia resolver e foi mandado de volta pra Inglaterra, Matheus Gonçalves passou a ser tratado como possibilidade e não seria surpresa se fosse abduzido ou desaparecesse num campo de milho.
A vitória veio? Sim, veio, com um gol de Juninho - o atacante que comemora celebrando o sagrado feminino – numa jogada nascida exatamente das substituições feitas por Filipe Luís, que tirou o cansado de la Cruz, o perdido Michael e o mentalmente atordoado Ayrton Lucas para as entradas de Alan, Alex Sandro e do já citado homem que veio do Azerbaijão.
Mas um time como o Flamengo precisa de mais. Mais opções criativas no banco, mais soluções diante de equipes fechadas, mais rendimento contra um adversário profundamente inferior. É excelente começar a Liberta vencendo, é gostoso demais não passar mais os sustos que passávamos antigamente. Mas hoje, que pela qualidade e investimento, o Flamengo equivale a uma Ferrari, não podemos achar que sucesso é não passar pelos mesmos perrengues de quanto andávamos de Chevette.
João Luis Jr. é jornalista, flamenguista desde criança e já viu desde Walter Minhoca e Anderson Pico até Adriano Imperador e Arrascaeta, com todas as alegrias e traumas correspondentes. Siga João Luis Jr no Substack.