A memória do vento

26/03/2018, 19:31
Atualizado: 14/02/2025

O escritor japonês Haruki Murakami criou, em seu livro (lançado no Brasil pela Alfaguara) “Ouça a canção do vento”, um personagem chamado Derek Hartfield, um escritor americano de novelas de ficção científica - o recurso de criar escritores fictícios é sempre interessante, e de cabeça já lembro que Philip Roth e John Fante o fizeram. No caso citado, porém, Hartfield não chega a aparecer como alter ego, e sim como ídolo do narrador de Murakami, alguém a quem ele dedica uma admiração afetuosa.

Um dos “contos” de Hartfield, segundo nos diz o narrador do livro de Murakami, é sobre um jovem que vive em Marte, e explora um planeta repleto de poços sem fundo, todos feito de tijolos. Na história, é destacado que não há nenhum vestígio de civilização dos marcianos, absolutamente nada - apenas os poços. A humanidade então debate o que teria acontecido, por que os poços, etc. Várias expedições tentam descobrir onde vão dar os poços, por que foram feitos, sempre em vão.

No blog: O Flamengo em seu momento de dúvida e fé

Grupos de exploradores levam cordas para poderem voltar. Mas acabam voltando antes de encontrar qualquer coisa que os ajude a entender. Quem entra nos poços sem corda jamais volta - tragado pelos poços laterais, mistérios igualmente incompreensíveis e sem resposta.

Um dia, nos conta o escritor fictício, um jovem decide entrar nos poços e descobrir o que acontece. Ele está “cansado da vastidão do universo e deseja uma morte anônima”. Ele vai descendo e, à medida que entra, vai se sentindo melhor, o corpo vai sendo envolvido por uma força estranha. Ele entra em um poço lateral e caminha por um tempo indefinido. Anda por túneis tortuosos, e mal sabe se se passaram duas horas ou dois dias. De repente, sente a luz do sol e descobre que o túnel acabou dando em outro poço. Ele escala as paredes e chega à superfície, vê que o sol está diferente, estranho, uma bola cor de laranja como o crepúsculo. Neste momento, ele ouve o vento sussurrar em seu ouvido: “Daqui a 250 mil anos o sol vai explodir, não é muito tempo”.

O jovem então reclama que “foi de repente”, e o vento lhe responde que, na verdade, quando ele passeava pelos túneis, um bilhão e meio de anos se passou. “Os túneis por onde você passou foram escavados nas dobras do tempo”, diz-lhe o vento. “Nós estamos vagando através do tempo, desde o surgimento do universo até o fim, por isso não há nascimento nem morte para nós. Somos vento”. O jovem pergunta ao vento “O que foi que você aprendeu?”. O vento ri, “agitando a atmosfera”. Em seguida, o silêncio infinito volta a cobrir a superfície de Marte, e o jovem então põe fim à própria vida.

 

No fim de semana, voltei a um lugar ao qual eu não ia há 42 anos: o Mara Palace Hotel, em Vassouras. É uma casa colonial, uma espécie de relíquia dos tempos em que a região do Sul Fluminense era riquíssima por causa do café. Quando fui ao Mara na época de criança, achava-o um ótimo hotel - meu pai tinha negócios na região relacionados a cinema (era distribuidor de filmes) e costumava ir até lá, fui mais de três vezes com certeza. Em 2018, aos 50 anos, voltei ao Mara, e fiquei triste com o que vi - apesar da dedicação dos funcionários, o hotel sofre com a falta de uma política de turismo, com a febre amarela que espantou os poucos visitantes e com uma decadência física que acomete todos os que não tentam se renovar. Apesar da imponência, as acomodações são sofríveis, o que é uma pena. O preço é de hotel bom, mas...

Mas o importante aqui é explicar por que estou falando disso e o que isso tem a ver com o Flamengo.

No Mara Palace Hotel eu encontrei o Zico pela primeira vez em minha vida.

Nunca esqueci o que aconteceu. O time do Flamengo estava lá para um amistoso, talvez uma pré-temporada. Não lembro. Aí vi Doval, um dos meus ídolos. Vi Rodrigues Neto. Vi Liminha. E aí meu pai aponta, ao longe, ele, cabelos compridos, cara meio sardenta, magro, de camiseta de treino e short: o Zico. “Vamos lá falar com ele”. Um menino de oito anos indo encontrar aquele que já era seu maior ídolo. Zico estava conversando com alguém perto da piscina do hotel. Nós estávamos andando pelo pátio.

Senti medo, timidez, e disse pro meu pai que não queria ir. Ele, naquele estilo inesquecível, falou algo como “deixa de bobagem”. Mas eu recuei. Andei a esmo, até que alcancei uma porta para dentro do salão do hotel. Um portal. E fiquei ali, escondido, os cabelos grandes e amarelos como espiga de milho. Olhava de vez em quando, colocando a cabeça para fora. Vi meu pai e o Zico rindo de mim.

Claro: eu estava tão bem escondido que até um cego me encontraria. Mas aí aconteceu: meu pai e o Zico continuaram a andar até o local em que eu estava. E foi exatamente ali naquele ponto, onde fiz essa foto segurando meu filho, que o Zico falou comigo, passou a mão na minha cabeça, e eu não consegui falar nada.

Eis que de repente, naquela hora, na quinta-feira, fim da tarde, quando toquei as paredes daquele lugar, me senti como o jovem personagem de Murakami, não entendia que tempo havia se passado, por que o sol estava alaranjado, por que o céu não parecia o mesmo e… por que o meu pai e o Zico não estavam ali. Em que túnel eu havia entrado?

Outro dia li o texto de um pai vascaíno reclamando que o Zico foi pouco cortês com seu filho rubro-negro no lançamento da cerveja do Galinho. Acredito. Quando tentei levar a ele o livro (nunca publicado) em que escrevo sobre a relação entre meu pai, o Flamengo, Zico e eu, a reação não foi lá das mais entusiasmadas. Peguei uma encadernação do livro, com o título na capa - “O velho e o Zico” - e uma foto minha dando milho a pombos e vestido de Flamengo, e entreguei, assim, dizendo que era sobre ele. Só que o Zico estava com pressa, e ele já havia me feito um favor, que foi o de gravar um vídeo para a PM (eu era assessor deles na época) sobre a segurança para a Copa do Mundo de 2014. Ele pegou o caderno e foi embora, sem nem folhear na minha frente.

Aí você pode estar pensando que eu fiquei chateado com isso e estou reclamando do Zico. Engano seu. Claro que a gente até pode ficar chateado, desapontado - mas não muda o que o Zico é para mim, e sempre será. Ídolos são seres humanos, e não existem para nos servir, e sim para irradiar a luz. A luz que é ser Flamengo, no caso.

Volto a Hurakami: foi a luz do sol que fez aquele jovem subir o poço e perceber que o tempo passou. No meu caso, é a luz do Zico. É essa luz que me guia para esses momentos com o velho, momentos que descrevo no livro (nunca publicado). É o que me fez ter uma foto com meu filho no mesmo local, na mesma porta, em que tudo aconteceu, em 1976. Sim, é como se bilhões de anos tivessem se passado, mas a verdade é que, ao contrário do Sol, o Flamengo não esmaece.

Porque o Ser Flamengo é uma herança que o vento espalha e junta novamente, sob a forma abstrata de devoção.

Foto no texto: Marcele Fernandes
 


Gustavo de Almeida é jornalista desde 1993, com atuação nas áreas de Política, Cidades, Segurança Pública e Esportes. É formado em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense. Foi editor de Cidade do Jornal do Brasil, onde ganhou os prêmios Ibero-Americano de Imprensa Unicef/Agência EFE (2005) e Prêmio IGE da Fundação Lehmann (2006). Passou pela revista ISTOÉ, pelo jornal esportivo LANCE! e também pelos diários populares O DIA, A Notícia e EXTRA. Trabalhou como assessor de imprensa em campanhas de à Prefeitura do Rio e em duas campanhas para presidente de clubes de futebol. É pós-graduado (MBA) em Marketing e Comunicação Empresarial pela Universidade Veiga de Almeida. Atualmente, escreve livros como ghost-writer e faz consultorias da área de política, além de estar trabalhando em um roteiro de cinema.


 

 



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